O aprofundamento do conflito entre Israel e Irã encontra raízes no longo histórico do programa nuclear iraniano, acusado por Tel Aviv de representar um “perigo existencial” para o Estado judeu. Entender essa trajetória, marcada por acordos diplomáticos, fatwās religiosas e manobras geopolíticas, é fundamental para compreender a atual escalada bélica e seus desdobramentos imprevisíveis.
Início do programa nuclear e apoio ocidental
O programa nuclear iraniano começou na década de 1960, sob o xá Reza Pahlavi, com suporte técnico e financeiro da Alemanha e dos Estados Unidos. A iniciativa visava ao desenvolvimento de uma indústria energética capaz de sustentar o crescimento econômico do país. Esse processo teve impulso adicional após o golpe de Estado de 1953, orquestrado pela CIA e outras agências ocidentais que depuseram Mohammed Mossadegh, então primeiro-ministro que havia nacionalizado os poços de petróleo iranianos.
Em 1979, a Revolução Iraniana depôs o xá e instaurou a República Islâmica, encerrando a subordinação de Teerã às potências ocidentais. Ainda assim, o aiatolá Ruhollah Khomeini emitiu um fatwâ proibindo o uso de armas nucleares, defendendo que tais dispositivos eram contrários aos princípios do Islã. Somente em 1989, após a morte de Khomeini, o aiatolá Ali Khamenei autorizou a retomada do programa nuclear, sempre afirmando tratar-se de iniciativa “estritamente pacífica”.
Fatwā, necessidade energética e orgulho nacional
Em 2005, Khamenei reforçou a proibição religiosa à produção e uso de armas nucleares por meio de novo fatwâ, reiterando que tal armamento seria “contrário ao espírito do Islã”. Para o analista Ali Ramos, autor de estudos sobre o mundo islâmico, o enriquecimento de urânio pelo Irã nunca visou à bomba, mas sim ao suprimento energético e à industrialização:
“O Irã tem um problema histórico, desde a época do xá, para criação de energia, para desenvolver sua indústria. O Irã tem algumas usinas nucleares por isso” afirma Ramos.
Já o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira compara o programa nuclear ao movimento de nacionalização do petróleo conduzido por Mohammed Mossadegh, definindo-o como “uma afirmação do orgulho persa contra a tutelagem do Ocidente”.
Negociações de 2012: Brasil e Turquia na mediação
Em 2012, sob a coordenação do então ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, Brasil e Turquia negociaram um acordo para controlar o estoque de urânio pouco enriquecido (LEU) do Irã. Teerã aceitou transferir 1,2 mil quilos de LEU para a Arábia Saudita, em troca de combustível para suas usinas nucleares fornecido pela Rússia. Apesar do cumprimento de todas as condições por parte do Irã, o governo Barack Obama manteve as sanções e “recuou da própria proposta”, segundo Moniz Bandeira, alegando que o objetivo era usar novas punições econômicas para restringir o poder xiita em Teerã.
Acordo de 2015 (JCPOA) e seu colapso
O Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA), firmado em 2015 entre Irã, China, Rússia, Estados Unidos (sob Obama), Reino Unido, França e Alemanha, limitou por dez anos as atividades nucleares iranianas em troca do descongelamento de até US$ 100 bilhões em ativos. Em janeiro de 2016, a AIEA atestou o cumprimento iraniano das metas estabelecidas.
Contudo, em 2018, o presidente Donald Trump retirou unilateralmente os EUA do acordo, reimpondo sanções e classificando o pacto como “desastroso”. Para Ali Ramos, a medida visava agradar a setores conservadores e ao lobby israelense dentro dos EUA, “tudo isso só para conseguir apoio interno”.
O papel da AIEA e a instrumentalização política
Recentemente, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) emitiu resolução afirmando que “a Agência não está em condições de garantir que o programa nuclear do Irã é exclusivamente pacífico”, um comunicado que precedeu o ataque israelense em Omã, onde ocorriam negociações de reaproximação entre Teerã e Washington. Segundo o professor Robson Valdez, do IDP:
“Essa mudança na abordagem da AIEA tem que ser avaliada também dentro desse contexto de provável instrumentalização da agência para legitimar a entrada dos EUA no conflito geral do Oriente Médio. A meu ver, [Netanyahu] busca obter, de forma definitiva, a superioridade militar em toda região.”
Para Valdez, a suposta imparcialidade da AIEA foi comprometida por pressões geopolíticas, transformando-a em “braço de Israel e dos EUA” na defesa de interesses estratégicos.
Implicações geopolíticas e desfecho incerto
Analistas apontam que o verdadeiro objetivo de Israel e de potências ocidentais não seria apenas evitar um Irã nuclear, mas instalar um regime de dependência econômica e militar que assegure a hegemonia de Tel Aviv no Oriente Médio. Conforme Ali Ramos:
“Israel não aceita que nenhum dos seus vizinhos tenha indústria ou poderio econômico para se tornar uma potência hegemônica na região. Para ter hegemonia, Israel não depende só que o país não tenha armamento nuclear, depende também que o país esteja sempre empobrecido.”
A escalada recente, portanto, reflete não apenas preocupações com o armamento atômico, mas disputas por recursos energéticos, trajetórias históricas de influência e rivalidades regionais. Até que ponto a comunidade internacional admitirá intervenções militares com base em relatórios questionáveis está em jogo na geopolítica atual — e as consequências poderão redesenhar o futuro do direito internacional e do equilíbrio de poder no Oriente Médio.