Conceição deu aula irreverente para petistas atônitos com Lula 1; relembre

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 2003, no primeiro governo petista, a economista Maria da Conceição Tavares exibiu sua verve ao ser escalada para explicar a política econômica a uma plateia de deputados do partido atônitos com a adoção de políticas tidas como neoliberais. A Folha teve acesso à aula, e o relato da época segue abaixo:

Alencar está “possesso”, diz economista do PT

Maria da Conceição Tavares defende governo e aconselha deputados a “empurrar autonomia do BC com a barriga”

O governo Luiz Inácio Lula da Silva teve de travar uma queda-de-braço com o mercado, que queria um aumento de juros muito maior; o vice-presidente José Alencar está mais “possesso” com a economia que muitos dos radicais do PT; a bancada petista deve “empurrar com a barriga” a autonomia do Banco Central, que hoje, na prática, tem de seguir os ditames do FMI.

Essas e outras afirmações fizeram parte de uma mistura de aula e defesa da política econômica de Lula, ministrada, em uma reunião a portas fechadas com deputados petistas, pela professora e ex-deputada Maria da Conceição Tavares (PT-RJ), 72, economista de mais renome ligada ao partido.

“Não venham me encher o saco, porque nós aceitamos o acordo com o Fundo em junho [de 2002]”, foi uma das respostas de Conceição a deputados que se queixavam da ortodoxia abraçada pelo governo. A professora defendeu a opção, mas escancarando o mal-estar petista: “Claro que eu passei mal, vomitei”.

Iniciada pouco após as 20h de anteontem, após uma exaustiva sessão da Câmara em que o PT não conseguiu votar o que precisava devido à obstrução do PFL, a reunião se arrastou até depois das 23h. Cansada e algo confusa, a plateia tentava acompanhar o discurso da ex-colega.

De uma cabine de gravação, a Folha teve acesso parcial à exposição da professora, que falava com desenvoltura por Lula e várias autoridades do governo -estava claro que Conceição, mesmo sem cargo formal no Executivo, não estava ali só como acadêmica.

Com franqueza, irreverência e um cigarro após o outro, a ex-deputada deixou a discrição adotada em público desde a eleição de Lula. Palavrões abundavam, como ao caracterizar a situação econômica global: “Mundo de merda”. É nesse tipo de mundo, segundo Conceição, que se justificam as opções econômicas de Lula, com o agravante da herança deixada pelo governo FHC. Sem investimentos externos, o jeito é depender do dinheiro do FMI.

“Enquanto não tirarmos a restrição externa, não adianta dar autonomia ao BC. Porque quem manda é o FMI. Não está assinada a porra do acordo?”, argumentou, antes de defender que a bancada discuta sem pressa os mandatos para os dirigentes do BC.

Repetindo os ortodoxos, a professora disse que é preciso, sim, conter a inflação. Ser tolerante com preços para obter mais crescimento econômico, disse, é uma idéia “imbecil”. Mas previu um abrandamento da política monetária. “Vai baixar o juro; se não baixar, seremos invadidos por capital especulativo e vai ser aquela merda, como no tempo do baixinho [o ex-presidente do BC Gustavo Franco], que mandava mais que o ministro da Fazenda.”

Que tal impor controles sobre o capital externo, bandeira histórica do PT? “O Chile fez controle de capital e estava na cara que ia dar um bode filho da mãe”, foi a resposta ao deputado que a questionou. Por que subir os juros? “O mercado queria 3,5 [pontos percentuais de alta]” -as taxas subiram de 25% para 26,5% ao ano.

Se o PT está incomodado, pior estão os empresários, segundo Conceição. “Os chamados empresários produtivos não chiam porque muitos têm bancos.”

Um dos mais inconformados, disse, é o próprio José Alencar, dono da Coteminas. “O vice-presidente, que é [do setor] têxtil, está puto. Está possesso. Está mais possesso que muitos aqui.” Alencar, porém, foi fartamente elogiado pela lealdade a Lula.

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