Como Luiza Brina faz da música sua religião em seu novo álbum ‘Prece’

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em 2010, Luiza Brina experimentou suas primeiras crises de pânico. Mãos suando frio, taquicardia, medo de morrer, incapacidade de sair de casa. “Comecei a sentir que eu tinha que acreditar em alguma coisa religiosa, até para uma salvação desse estado”, lembra a compositora, cantora, multi-instrumentista e arranjadora, que nunca teve uma religião. Sem saber rezar, ela escreveu uma música que chamou de “Oração”.

Aquela composição deu início a uma série de canções, feitas ao longo dos últimos anos só ou com parceiros, todas batizadas como orações e numeradas como as “coisas” de Moacir Santos: “Oração 1”, “Oração 2” e assim por diante. Algumas foram gravadas em seus discos ou por outros intérpretes. Mas, pela primeira vez, Luiza dedica um álbum inteiro a elas.

Com uma orquestra de 19 instrumentistas mulheres de sete nacionalidades diferentes arregimentadas por Luiza e com participações de artistas como a mexicana Silvana Estrada, “Prece” reúne 10 orações. A delicada inventividade das cordas, sopros e percussões —todos os arranjos foram escritos pela compositora— evidencia a musicalidade rara de Luiza.

Nunca, porém, a musicalidade de Luiza se exibe de forma gratuita. Em seu quarto álbum de estúdio, as frases musicais que se sobrepõem à riqueza rítmica, o diálogo entre os timbres, os processamentos eletrônicos conduzidos por Charles Tixier, tudo enfim busca aprofundar a conexão do repertório com a perfeição misteriosa do divino. A aproximação de Deus pela beleza grandiosa, como nas catedrais góticas —com ares de igrejas do barroco mineiro e de arquitetura (de)colonial latina.

“Com o tempo, fui entendendo que a música foi se tornando minha religião”, explica Luiza. “Esse lugar onde eu encontro um vínculo com a vida, onde eu me sinto viva. E é o que me faz ter fé”. Algumas letras reafirmam sua ideia de divino, em versos como “Vem/ Faz-me crer que aqui/ Qualquer vida em si/ Traz no chão a fé” —”Oração 2″, parceria com Julia Branco— ou “Diós está en las cosas/ Que nos alejan de diós/ Cosas tan hermosas/ Como tú, como yo” —”Oração 16 (diós/ adiós)”, que no disco tem a participação da argentina LvRod.

Há composições que se dirigem a divindades específicas, como “Oração 19 (oração pra Oxum)”, parceria com Iara Rennó, que canta com Luiza na gravação. Ou “Oração 15 (oração à Cobra Grande)”, da compositora com Thiago Amud.

Outras mergulham no mistério da existência, como “Oração 17”, de Luiza e Luizga, que traz versos como “Coragem faz a luz crescer”. É o caso também de “Oração 18 (pra viver junto)”, que afirma, entre o labirinto oracular e a simplicidade de canção de amor: “Pra viver junto é preciso poder viver só/ Pra gente se encontrar/ Pra andar junto é preciso poder andar só/ Pra gente caminhar”.

Luiza não consegue definir os aspectos formais que diferenciam as orações de suas outras composições. Mas sabe que uma oração se define ainda antes da letra. “Tem um lugar da melodia que pra mim já surge como sagrado”, diz a compositora. Quase sempre, nas que não escreve sozinha, ela indica um tema ao parceiro, como em “Oração 3”, que fez com Vovô Bebê. “Disse a ele: ‘Acho que essa letra tem que ser sobre uma pessoa olhando da janela o mundo acabando. E tentando entender isso’”, conta.

A Thiago Amud, Luiza pediu uma oração pelo Brasil — o país vivia a pandemia, com o bolsonarismo no poder. Ele devolveu os versos de “Oração 15 (oração à Cobra Grande)”. “Ele me falou: ‘Tentei ir pelo caminho que você sugeriu, mas quando eu pensava nessa ideia da oração do Brasil, o que me vinha era uma referência à lenda da Cobra Boiúna, e um pedido pela salvação dos rios’. Eu achei maravilhoso, porque pedir pelos rios é muito uma oração pelo Brasil, ainda mais agora”, nota Luiza, referindo-se às inundações no sul do país. “E fiquei muito emocionada também porque esse tema é especial para nós de Minas Gerais. As barragens, a mineração…”.

Minas está presente de forma marcada no disco, não só na figura de Luiza. Sérgio Pererê é parceiro e convidado de “Oração 13 (coração candongueiro)”; Maurício Tizumba canta em “Oração 15”; Julia Branco é parceira de Luiza em “Oração 2”; e a mestra griô Rainha Isabel Casimira, também conhecida como Rainha Belinha, liderança do terreiro de congado 13 de Maio, entoa à capella os versos de “Velhos da coroa”, canção de Pererê.

“Prece”, porém, expande os limites da música de Luiza para além de Minas, na direção dos países vizinhos da América Latina. Mais precisamente, na direção da vanguarda da música pop da América Latina. Vencedora do Grammy Latino como Artista Revelação, Silvana Estrada talvez seja o exemplo mais evidente disso. Ela canta com Luiza “Oração 2”, em sua primeira colaboração com uma artista brasileira.

“Um dia ela me escreveu, contou que o (músico americano filho de equatorianos) Helado Negro tinha enviado o meu disco pra ela, o ‘Tão tá’, e que ela gostava muito”, lembra Luiza. “Trocamos mensagens, mas eu sou muito tímida. Quando ela veio fazer um show em São Paulo, fui no camarim, e ela foi muito carinhosa. Seguimos conversando pelo WhatsApp e até que ela disse: ‘Amo muito seu disco, quero fazer algo com você’. Então a chamei pra ‘Oração 2’, que dialoga com o repertório dela, com sua voz”.

Além da mexicana, o disco traz a cantora argentina LvRod em “Oração 16” e, em várias faixas, o percussionista chileno José Izquierdo, pesquisador decolonial e mestre de Luiza há mais de uma década em estudos de toques oriundos da África. “Essa conexão de Minas com essa América Latina outra vem de muito tempo já, de Milton com Mercedes Sosa… É algo que existe num lugar muito profundo”, diz Luiza, novamente, de alguma maneira, inventando outros nomes para o divino — e formas de tocá-lo.

PRECE

Onde Disponível nas plataformas de streaming

Autoria Luiza Brina

Gravadora Dobra Discos

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