Com mortes maternas e êxodo, mulheres são minoria nas terras indígenas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As terras indígenas no Brasil são povoadas por uma maioria de homens, que são mais numerosos em relação às mulheres nesses territórios até chegarem aos 75 anos. É um contraste em relação à população indígena em geral, que tem maioria feminina em 62% dos municípios onde estão presentes.

Os dados do Censo 2022 divulgados nesta sexta-feira (3) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram, em suma, que as mulheres são maioria entre os indígenas, mas vivem predominantemente fora de suas terras tradicionais. As hipóteses para explicar isso passam pela mortalidade materna e pela migração em maiores quantidades das mulheres para fora das terras indígenas, segundo pesquisadores do instituto.

Só 37% da população indígena reside em territórios oficialmente demarcados (ou seja, aqueles com situação fundiária de declarada, homologada, regularizada ou encaminhada como reserva indígena).

Num universo de 4.108 municípios brasileiros pesquisados pelo IBGE, as mulheres são a maioria da população indígena de 2.539 deles, ou quase 62%. Essa tendência se inverte quando se analisa apenas as terras delimitadas. Entre 533 terras indígenas analisadas, os homens eram maioria em 381 (equivalente a 71%).

“Há alguns estudos no campo da demografia da saúde mostrando que, até pela localização das residências nas terras indígenas, mais afastadas do atendimento de saúde mais completo e mais complexo, pode haver um efeito sobre a mortalidade materna”, disse a pesquisadora Marta Antunes, responsável pelo Projeto de Povos e Comunidades Tradicionais do IBGE.

“[Essa alta mortalidade ocorre] também pelo fato das mulheres indígenas começarem a ter filhos cedo e terem filhos até mais tarde. A partir das últimas gestações, começam a ter uma sobremortalidade materna nesse sentido”, ela completou.

Pesquisas já apontaram que a mortalidade é mais alta entre mães indígenas em diferentes regiões e estados brasileiros, em comparação à população em geral. Segundo um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, publicado em outubro do ano passado, as indígenas tiveram a maior taxa de mortalidade materna proporcional por hemorragia em 2020, na comparação com mães de outras etnias.

O boletim compara esses dados a cada cinco anos. Esse índice de mortalidade chegou a 28% entre as mães indígenas, enquanto na população em geral foi de 10%. Outros estudos já identificaram dificuldade maior de acesso a exame pré-natal entre as indígenas, em comparação a mulheres brancas, por exemplo.

O IBGE também identificou que mulheres indígenas também se mudam para fora das terras indígenas com maior frequência. Isso está ligado tanto à busca por trabalho quanto à necessidade de acompanhar a vida escolar dos filhos, segundo o pesquisador Fernando Damasco, do IBGE.

“Os estudos feitos até o momento indicam que, efetivamente, as mulheres tendem a migrar mais, tanto por conta da necessidade da busca maior por escolarização em termos da busca de oportunidades”, disse Damasco. “Essas pessoas estão em busca tanto da escolarização, de acesso ao trabalho e renda, de melhores condições, às vezes até a necessidade de uma saída diante de uma situação desfavorável relacionada a uma fome temporária, uma escassez de recursos. Então, essa saída é sempre acompanhada também de um potencial retorno.”

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