Clima dificulta resgate no RS; 70 mil pessoas foram afetadas pela chuvas

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – As fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul já deixaram mais de duas dezenas de mortos e obrigaram milhares de pessoas a deixar suas casas. O poder público tem encontrado dificuldade em fazer o resgate de parte da população que vive nas áreas afetadas –em parte, exatamente devido ao clima.

Aeronaves enviadas por São Paulo e por Santa Catarina para ajudar nessas ações, por exemplo, não conseguiram entrar no espaço aéreo gaúcho exatamente por causa das tempestades.

Em municípios do vale do Taquari como Putinga, que tem uma barragem sob risco de rompimento, e Cotiporã, em qual a barragem já se rompeu, os ventos e chuvas prejudicaram a chegada de helicópteros. “Todo o esforço no sentido de levar aeronaves para esta região, mas infelizmente as condições climáticas não tem permitido que a gente acesse essa localidade”, disse o governador Eduardo Leite (PSDB).

Até agora, o estado registra 29 mortes e 60 pessoas desaparecidas por causa da chuvas, de acordo com os dados oficiais da Defesa Civil estadual. Ao todo, 154 municípios foram atingidos pela tempestade. Há 4.645 pessoas em abrigos e outras 10.242 estão desalojadas. No total, há 71.306 afetados e 36 feridos.

Na terça-feira (30), as primeiras operações aéreas foram feitas próximas a Sinimbu e Candelária, e a Defesa Civil havia pedido à população que se possível fizesse sinalizações luminosas para facilitar a identificação dos pontos de resgate. Militares da FAB (Força Aérea Brasileira) estão usando óculos de visão noturna para o resgate de vítimas das enchentes.

Moradores de áreas de risco em cidades das regiões central, metropolitana e dos vales do Caí e Taquari deixaram suas casas nesta quinta-feira (2). Os dois rios já estão em suas máximas históricas, com previsão de crescimento nas próximas horas.

Ao menos 110 pessoas já foram resgatadas até a manhã de quinta-feira, dentre elas oito pacientes de hemodiálise, duas gestantes e uma criança de dois anos em estado crítico que estava hospitalizada em Faxinal do Soturno e foi encaminhada para Santa Maria.

Além disso, 12 pacientes da Unidade de Terapia Intensiva do hospital de Estrela, no vale do Taquari, foram transferidos para Porto Alegre e Lajeado de ambulância na quarta-feira (2).

Na quinta, dez pacientes de hemodiálise foram levados de helicóptero de Candelária, que está isolada por via terrestre, até Santa Cruz do Sul para seguir tratamento.

Até a tarde de quinta-feira, 139 trechos em 60 rodovias estavam interrompidos total ou parcialmente, prejudicando o deslocamento de equipes.

O Rio Grande do Sul recebeu apoio de bombeiros vindos do Paraná e de Santa Catarina, estado que deve enfrentar chuvas fortes a partir da noite desta quinta (2). Helicópteros catarinenses estão envolvidos na operação, assim como o apoio aéreo enviado de São Paulo.

Retiradas aéreas foram feitas em diferentes cidades do RS, como em Cruzeiro do Sul e Imigrante, no vale do Taquari.

A Defesa Civil estadual encaminhou ao Comando Militar do Sul (CMS) um mapa contendo a localização de pedidos de socorro para indicar às forças nacionais os pontos que demandam ações de resgate.

As Forças Armadas estão participando da operação com a Operação Taquari 2, comandada pelo general Hertz Pires do Nascimento, que inclui 626 militares, 12 embarcações, 5 helicópteros e 45 viaturas. O Comando Militar do Sul informou que há 20 organizações militares atuando no resgate e transporte de desalojados e da população ribeirinha.

Em São Sebastião do Caí, o rio Caí atingiu a marca de 17m01 às 16h30, e não há uma previsão ou projeções que apontem quando o nível deve estabilizar ou diminuir.

O aposentado Osmar dos Santos Tomás, 81, foi resgatado pelos bombeiros na manhã desta quinta após ficar ilhado no segundo andar de casa. O barco de resgate encostou em uma parte alta da cerca da casa para conseguir alcançar o idoso.

O resto da família havia deixado a casa na quarta, mas ele preferiu ficar em um primeiro momento, mas precisou sair após insistência do filho e o aumento da inundação. “A gente ficou sem comida, porque está tudo fechado e a gente não se preveniu, porque quando nos demos conta os mercados já estavam recolhendo tudo”

Agentes do exército na cidade fizeram a última leva de transporte de desabrigados no começo da tarde. Como o leito do rio Caí segue subindo, as operações agora vão ocorrer por via aérea ou embarcações.

A cidade conta com apoio de um helicóptero da Brigada Militar gaúcha e com bombeiros voluntários paranaenses para colaborar nas ações de resgate.

Outras pessoas da cidade não precisaram de resgate por terem saído a tempo de casa ou morarem em áreas mais altas, mas estão em alerta pela falta de previsibilidade do crescimento.

O agricultor Valdir Trein, do bairro Lajeadinho, está contabilizando as perdas. “Alface, couve, tempero, agrião, rúcula, repolho, tomate, pimentão, a vagem que eu fiz a primeira apanhada agora na terça-feira (30), está tudo abaixo d’água”, diz.

Dono de um pavilhão tomado pela água, ele conta que nunca houve um desastre tão grande, mas que era algo que já vinha em “gestação”. O agricultor anota em uma porta os níveis e as datas de diferentes enchentes, e três registros foram feitos somente em 2023 –dentre eles o de novembro, quando o rio atingiu 16 metros no que era a maior cheia da história.

Agora, ele espera a água baixar para retomar as atividades no campo. “Eu não tenho estudo, estudei só até o primeiro grau incompleto. Nasci e me criei dentro da lavoura”, diz Valdir. “Meu pai vai fazer 96 anos em julho, e ele me disse terça-feira: ergue a cabeça e continua trabalhando. É o que eu vou fazer”.

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