Cinquenta anos após morte de Perón, entenda o que é o peronismo e seus líderes

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – O cinquentenário da morte de Juan Domingo Perón (1895-1974), lembrado nesta segunda (1º), voltou a pôr em destaque um debate sobre o peronismo na Argentina. A corrente advinda do legado do ex-presidente se tornou a maior força política do país, criou vários ramos e hoje se vê ofuscada pela ascensão do ultraliberal Javier Milei, mas não deixou de manter sua relevância e capilaridade na vida dos argentinos.

Entenda as origens do peronismo e quais são as grandes figuras peronistas ao longo da história.

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O que é o peronismo?

Movimento político nascido nos anos 1940, durante as duas primeiras presidências de Juan Domingo Perón (1946-1952 e 1952-1955). Houve melhorias nas condições de vida dos mais pobres; criação de regras trabalhistas (férias, aposentadorias, limite de horas por semana; expansão da saúde e da educação gratuitas; instituição do voto feminino e grande presença do Estado na economia e em setores estratégicos, como ferrovias, indústria, energia).

O movimento se caracterizou por um nacionalismo antiamericano e pelo culto à personalidade tanto de Perón como de sua segunda esposa, Eva Perón (1919-1952).

O que é o antiperonismo?

Historiadores concordam em dizer que o antiperonismo nasceu praticamente junto com o peronismo, movido pela rejeição da elite argentina ao surgimento de um forte movimento popular, baseado na ampliação dos direitos de estratos mais pobres. Na linguagem coloquial, os antiperonistas são chamados de “gorilas”. Essas forças deram apoio aos militares que derrubaram Perón do poder em 1955.

O que foi o terceiro peronismo?

Depois de passar quase 18 anos no exílio, na Espanha, e casado com sua terceira esposa, Maria Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabelita Perón, o ex-general retorna a uma Argentina dividida em 1973. Consegue eleger-se graças a uma manobra na qual os peronistas conseguiram levar ao poder Héctor Cámpora, que suspendeu o banimento político de Perón imposto pelos militares e depois renunciou, convocando novas eleições. Sem impedimentos, Perón saiu vencedor em 1973, mas morreu no ano seguinte. Este breve período foi marcado por uma cisão entre peronistas de direita, vinculados a sindicatos, e os de esquerda, advindos da guerrilha urbana, de quem Perón, em seus últimos dias, se afastou.

Existe um partido peronista?

Não. O Partido Justicialista nasceu em 1946, fundado por Perón, para unir diferentes grupos que o apoiavam. O nome é uma referência à justiça social, a principal bandeira que pregava Perón. Com o passar do tempo, o PJ passou a ter menos importância, no sentido de que ganharam força outras agrupações defendendo valores peronistas, mas dividindo-se em vertentes: operária, sindical, à direita, à esquerda, feministas, antifeministas e as controladas por caudilhos regionais. Hoje, o Justicialista é apenas um dos vários partidos e alianças que compõem o peronismo.

Quem foram os presidentes peronistas depois da morte de Perón?

Isabelita Perón (1974-1976) – direita

María Estela Martínez de Perón entrou na política por casualidade. Virou candidata a vice no retorno de Perón do exílio porque o general já não tinha mais em quem confiar. Assumiu, depois da morte do marido, uma Argentina em que o peronismo já estava dividido em dois. De um lado, a guerrilha urbana dos Montoneros (esquerda); do outro, o grupo em quem confiava mais, os sindicalistas, mais à direita.

A violência era uma constante, e Isabelita, como era chamada, atendeu a um conselho de López Rega, seu assessor espiritual, e deu forças à Triple A, um esquadrão da morte guiado pelo peronismo. Sua inabilidade administrativa, porém, levou ao golpe militar de 1976, que marcou o início da mais sangrenta ditadura da história argentina.

Aos 93 anos, Isabelita vive em Madri, para onde se mudou em 1981.

Carlos Menem (1989 a 1999) – centro-direita

De tendência liberal, retomou o espírito e o modo de ser de Perón, imprimindo um toque personalista e populista forte em sua gestão. Em busca de coesão nacional, indultou ex-militares e ex-guerrilheiros. Sua política econômica, cujo pilar era a equiparação de 1 peso a 1 dólar, foi amplamente apoiada pela sociedade.

Morto em 2021, aos 90 anos, Menem deu um giro nas relações internacionais. Enquanto o peronismo tradicional tinha o foco em países do Terceiro Mundo e nos vizinhos da região, ele preferiu se aproximar dos EUA. Ele também realizou um polêmico projeto de privatizações. Foi o líder peronista que mais perto chegou de Perón em termos de aprovação popular.

Eduardo Duhalde (2002-2003) – centro-esquerda

O ex-governador da Província de Buenos Aires assumiu o poder depois da grande crise de 2001, marcada pela renúncia de Fernando De La Rúa e de um período de turbulência que levou o país a ter cinco presidentes em uma semana. Duhalde, hoje com 82 anos, ascendeu ao cargo por uma votação do Congresso, obedecendo a lei de vacância de poder. Alcançou estabilidade e confiança. Congelou tarifas de serviços e aplicou impostos altos aos exportadores. Ofereceu assistência aos que haviam perdido tudo em 2001.

Em sua gestão, assume a Economia Roberto Lavagna, que permaneceria com Néstor Kirchner e seria um dos principais responsáveis pela recuperação da Argentina.

Néstor Kirchner (2003-2007) – esquerda

Vindo de uma distante província patagônica (Santa Cruz), enfrentou o descaso e o preconceito por parte da elite portenha tão logo assumiu o poder. Militou no peronismo desde os anos 1970, quando conheceu sua mulher, Cristina Kirchner, futura senadora e presidente. Nas eleições de 2003, estava em segundo lugar, rumo ao segundo turno com Carlos Menem. Este, porém, desistiu de última hora, e Kirchner se elegeu.

Destacam-se em seu governo a redução à metade dos níveis de pobreza, que estavam perto dos 60% por conta da crise de 2001, e a revogação de indultos e anistias para que a Justiça pudesse realizar amplos julgamentos de repressores. Conseguiu uma recuperação inédita da economia do país, por conta das políticas de Lavagna e também porque o país entrou no “boom de commodities”. O país chegou a ter crescimentos do PIB na ordem de 8% a 10%.

Na política externa, voltou a redirecionar os interesses da Argentina para a região, tendo relação próxima com os outros presidentes da chamada “onda rosa”: Hugo Chávez, Evo Morales, Tabaré Vázquez, Rafael Correa, Luiz Inácio Lula da Silva etc. Morreu em 2010.

Cristina Kirchner (2007-2015) – esquerda

Advogada e ex-senadora, teve dois mandatos na sequência de seu marido, morto em 2010. É uma das figuras peronistas mais importantes da história. Alcançou níveis históricos de popularidade. Ganhou duas eleições sem precisar de segundo turno. Na economia, aproveitou a boa onda dos preços internacionais das commodities e pôde adotar políticas de repasse de verbas em planos assistencialistas e por meio de subsídios para praticamente todos os serviços.

A primeira grande contestação à sua gestão se deu em 2008, quando tentou implementar um imposto extra para as exportações do campo. Levou milhares às ruas rejeitando a medida. Resolveu, então, mirar na imprensa, que havia se posicionado a favor dos ruralistas. O principal alvo foi o Grupo Clarín. Cristina sustentou veículos de comunicação pagos pelo Estado para se contrapor à cobertura do Clarín.

Foi um governo que, embora não tenha querido enfrentar o tema do aborto, garantiu diversas leis de defesa da mulher e da comunidade LGBTQIA+. Cristina manteve uma política exterior comprometida com o multilateralismo e vinculada aos países da região. Também se aproximou de China e Rússia.

Houve muitas decisões polêmicas, como a intervenção do Instituto Nacional de Estatística e Censos (o INGE argentino), a estatização da YPF e das Aerolíneas Argentinas e mesmo do sistema de aposentadorias. Cristina, 71, responde a processos na Justiça por enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro, entre outras acusações.

Ao deixar o poder, continuou sendo a líder do peronismo, influenciando na escolha de candidatos tanto em nível regional como nacional.

Alberto Fernández (2019-2023) – centro-esquerda

Vindo do chamado “peronismo moderado”, Fernández, 65, foi apadrinhado por Cristina Kirchner. Tendo sido chefe de gabinete de Néstor Kirchner, tratava-se de um velho conhecido do kirchnerismo.

Numa gestão algo apagada, não conseguiu conter a inflação, que disparou em seu período, nem diminuir a pobreza. Ele mesmo se justificava dizendo que havia enfrentado pelo menos três grandes problemas: a pandemia, a Guerra da Ucrânia e a seca, que prejudicou muito a colheita de soja e trigo.

Como destaque, em seu governo foi aprovada a Lei do Aborto apenas pela vontade da mulher, política que defendeu abertamente e sem meios-termos.

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