O mundo do cinema e da cultura brasileira perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas nesta sexta-feira (14). O cineasta Cacá Diegues, nome artístico de Carlos José Fontes Diegues, faleceu aos 84 anos no Rio de Janeiro. A causa da morte foi complicações decorrentes de uma cirurgia, conforme informou a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual Diegues era membro desde 2018.
Nascido em 19 de maio de 1940, em Maceió (AL), Cacá Diegues mudou-se para o Rio de Janeiro ainda na infância, aos seis anos de idade. Foi na capital fluminense que ele construiu uma carreira brilhante, tornando-se um dos principais nomes do Cinema Novo, movimento que revolucionou a produção cinematográfica brasileira nas décadas de 1960 e 1970.
Trajetória no cinema e no ativismo político
Diegues iniciou sua jornada no cinema durante a faculdade de Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), onde fundou um cineclube e começou a produzir filmes amadores ao lado de colegas como Arnaldo Jabor. Esse espaço se tornou um dos pilares do Cinema Novo, movimento inspirado no neorrealismo italiano e na Nouvelle Vague francesa, que buscava retratar as desigualdades sociais e políticas do Brasil, especialmente durante o regime militar.
Entre suas obras mais marcantes estão Ganga Zumba (1964), A Grande Cidade (1966) e Os Herdeiros (1969). Em 1969, Diegues deixou o Brasil e partiu para o exílio na Europa, após se envolver na resistência intelectual e política contra a ditadura. Retornou ao país na década de 1970, quando dirigiu clássicos como Xica da Silva (1976), Bye Bye Brasil (1980) e Chuvas de Verão (1978), consolidando-se como um dos grandes nomes do cinema nacional.
Reconhecimento e legado
Ao longo de sua carreira, Cacá Diegues recebeu inúmeros prêmios em festivais nacionais e internacionais. Sua filmografia, que equilibrava popularidade e profundidade artística, abordava temas sociais e culturais com sensibilidade e crítica. Nos anos 1990 e 2000, ele continuou ativo, dirigindo sucessos como Tieta do Agreste (1996), Orfeu (1999) e Deus é Brasileiro (2002). Seu último trabalho como diretor foi O Grande Circo Místico (2018).
Em 2018, Diegues foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de Nelson Pereira dos Santos, outro ícone do cinema brasileiro. Em nota, a ABL destacou a importância de sua obra e sua atuação como intelectual engajado: "Sua obra equilibrou popularidade e profundidade artística, abordando temas sociais e culturais com sensibilidade. Durante a ditadura militar, viveu no exílio, mantendo-se sempre ativo no debate sobre política, cultura e cinema".
Homenagens e repercussão
A morte de Cacá Diegues gerou uma onda de homenagens nas redes sociais e na imprensa. Artistas, cineastas e admiradores destacaram sua contribuição para a cultura brasileira e sua capacidade de retratar a diversidade e as contradições do país. A ABL também expressou solidariedade à família, em especial à esposa, Renata Almeida Magalhães, e aos filhos.
Cacá Diegues deixa um legado que transcende o cinema. Sua obra continua a inspirar novas gerações de cineastas e a refletir as complexidades e belezas do Brasil. Sua morte é uma perda irreparável para a cultura nacional, mas sua história e seu trabalho permanecerão vivos na memória e na tela.