Cientistas brasileiros investigam relação entre sumiço de lago na Antártida e mudanças climáticas

Foto; Reprodução/UFF

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Ao longo das últimas décadas, um lago que chegou a abastecer uma estação científica argentina na Antártida quase desapareceu após uma série de vaivéns em seu nível de água, sendo tragado por rombos que surgiram no solo congelado da região.

Pesquisadores da UFF (Universidade Federal Fluminense), junto com colegas argentinos e de outras instituições brasileiras, estão tentando entender como o caso do sumiço do lago pode estar ligado às consequências da mudanças climáticas na região, uma das mais afetadas pelo aquecimento global.

Até onde os cientistas sabem, trata-se do primeiro desaparecimento de um lago antártico já registrado, embora situações similares estejam ocorrendo com alguma frequência no Ártico.

“É esperado que isso seja mais raro na Antártida simplesmente pelo fato de que esses lagos ficam nas poucas regiões livres de gelo do continente”, explica Rosemary Vieira, professora do Instituto de Geociências da UFF que é uma veterana da pesquisa na região, tendo visitado a Antártida 16 vezes desde 2003. Hoje, menos de 0,5% da superfície antártica corresponde a áreas livres de gelo, em trechos isolados do interior do continente e ao longo da costa.

É o caso da região do quase desaparecido lago Boeckella, que fica na baía Esperanza, no extremo norte da península Antártica. A península é a língua de terra que se estende do continente em direção à América do Sul, e é nela que fica a Base Antártica Esperanza, da Argentina, a cerca de 600 metros do lago.

Até janeiro de 2001, o corpo d’água tinha profundidade média de mais de seis metros e era delimitado por uma espécie de represa natural cuja barragem era uma moraina –um aglomerado de sedimentos arrastados por geleiras no passado, que pode incluir pedras de diferentes tamanhos, cascalho e areia.

Mas havia também gelo como “argamassa” na moraina. Quando ele derreteu, a barragem perdeu sua capacidade de segurar o lago, o qual sofreu uma diminuição súbita de seu nível. A equipe da base argentina tentou segurar o problema com a construção de barragens artificiais, até porque a água doce do lago era importante para seu abastecimento.

Ao mesmo tempo, porém, tudo indica que o fluxo de água derretida da geleira Buenos Aires, ali perto, aumentou de tal maneira a causar transbordamentos no lago entre 2005 e 2007. As barragens se romperam, com danos inclusive para os pinguins da vizinhança. “Existem pinguineiras enormes por ali, e muitos bichos foram arrastados”, conta Vieira.

Outros processos também estavam acontecendo. Tanto no leito do lago quando nas áreas vizinhanças a ele existe o permafrost (solo congelado das regiões polares).

“Esse solo fica congelado por profundidades de dezenas de metros, mas o trecho superior dele, normalmente com espessura de alguns metros e que fica em contato com o ar, é o que nós chamamos de camada ativa. Ela pode se descongelar e ficar congelada de novo ao longo do ano. O problema é que essa camada ativa foi ficando mais espessa”, relata a pesquisadora da UFF.

Começaram a surgir, então, buracos no permafrost que os colegas argentinos de Vieira chamam de “agujeros”. Embora a palavra derive de “aguja” (agulha) em espanhol, os buracos que continuaram a tragar a água não eram nada fininhos, chegando a ter metros de altura e a largura de um ser humano.

O processo se intensificou na década de 2010, de maneira que hoje o que restou do lago é pouco mais de 10% do volume original.

“A nossa pergunta é: será que isso está associado à temperatura regional? Afinal, sabemos que a península Antártica já esquentou em média cerca de 4°C [em relação ao período pré-industrial]. Temos dados de uma estação meteorológica vizinha da região desde os anos 1970, além de dados de satélite. Ao que tudo indica, a mudança de temperatura se instala a partir dos anos 1990, principalmente no caso das temperaturas mínimas, que ficaram mais elevadas”, diz a pesquisadora.

Resta saber também se o processo vai se repetir em outros lagos antárticos. O lago Buenos Aires, na vizinhança, por exemplo, por ora aumentou de nível, mas isso parece se dever ao derretimento intenso da geleira de mesmo nome.

“São muitas variáveis, e claro que esse processo deve ter impactos para o ambiente da região porque os lagos funcionam como fontes de água e de alimento”, analisa Vieira. Os estudos na região continuam neste ano, com a ida de uma equipe brasileira para lá. “Desta vez tive de ficar de castigo e não pude embarcar por problemas de saúde”, brinca ela.

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