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Cidade fundada por americanos já teve festa polêmica

FolhaPress 04/09/2025 11:07

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A cidade de Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo, tem em seu passado algumas das cicatrizes da história americana: a cidade foi fundada por soldados confederados, que escapavam da reconstrução do sul após a Guerra de Secessão, nos anos 1860.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

No início do século 19, Santa Bárbara ainda era mata virgem. Ao longo das seis primeiras décadas, ela foi gradualmente desbravada para cultivo. Surgiram assim as primeiras capelas e povoado, que inicialmente pertenciam à Piracicaba (SP).

Em 1867 começaram a chegar os primeiros soldados americanos a Santa Bárbara, que se tornou "independente" como cidade dois anos depois. Segundo a própria Prefeitura de Santa Bárbara, os confederados sobreviventes da Guerra de Secessão (1861-1865) trouxeram técnicas agrícolas que contribuíram significativamente para o desenvolvimento da região, que ainda incluiu o desenvolvimento da cidade de Americana (SP).

A Guerra de Secessão foi um conflito que quase rachou os EUA em torno da questão escravocrata. O sul do país, que queria preservar a escravidão, defendia o seu avanço para os territórios do oeste, enquanto os estados do norte (chamados de a União) queria impedir que os novos territórios recém-anexados se tornassem escravocratas também e colocava o sistema em risco a longo prazo.

Com a guerra, o sul separou-se do norte e formou uma nova república: a Confederação (ou Estados Confederados da América). No entanto, diante de sua derrota nos campos de batalha, a Confederação não durou.

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Após o conflito, os sulistas escravocratas tiveram que se reincorporar aos EUA ou deixá-lo. Este período, a reconstrução, foi especialmente difícil economicamente para a região com a libertação dos escravizados no pós-guerra. Assim, inicialmente, cerca de 2.700 americanos vieram parar no Brasil, com pelo menos 800 deles na província de São Paulo, segundo artigo da pesquisadora Letícia Aguiar, mestre em ciências econômicas pela Unicamp.

O QUE OS AMERICANOS VIERAM FAZER NO BRASIL?

A imigração dos confederados para o interior de São Paulo foi estimulada pelo Império Brasileiro, que queria alavancar a produção de algodão para exportar às indústrias inglesas. Esta era a mesma produção que eles já realizavam no sul dos EUA, mas não viam mais condições após o conflito. Na época, o Brasil ainda escravocrata era boa ideia: documentos históricos sugerem que Dom Pedro 2º ofereceu traslado gratuito do porto, isenção de serviço militar, entre outros "mimos" pela vinda deles.

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Confederados "reconstruíram" seu modo de vida no Brasil, incluindo a compra de pessoas escravizadas. Segundo o Recenseamento Geral do Brasil de 1872, Santa Bárbara possuía 2.587 pessoas naquela época, e 213 delas eram escravizados.

O grupamento de Santa Bárbara se tornou o mais bem-sucedido, com americanos cultivando algodão, cana e melancia e se integrando à política local. Entre 1896 e 1898, o confederado Wilber Fish McKnight foi o primeiro americano a se tornar político como vereador na Câmara Municipal da cidade, ainda segundo o levantamento da pesquisadora Letícia Aguiar.

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O êxito econômico tornou a comunidade vibrante e os descendentes dos confederados fizeram questão de manter vivas suas raízes. Era o caso do pai da cantora Rita Lee, Charles Fenley Jones. De família de imigrantes americanos que se estabeleceram em Santa Bárbara, ele deu à futura rainha do rock brasileiro um nome em homenagem ao general confederado Robert E. Lee. A história foi contada pela própria Rita em seu livro "Rita Lee: Uma Autobiografia".

ACUSAÇÕES DE RACISMO

Desde os anos 1980, Santa Bárbara organizava no Cemitério dos Americanos um festival chamado "Festa Confederada", que celebrava suas raízes e a colônia local. Moradores se vestiam como os soldados da Guerra de Secessão, hasteavam suas bandeiras da Confederação, comiam pratos americanos e cantavam e dançavam ao estilo Antebellum do sul.

Implicações do que estes símbolos significam para o povo americano incomodavam alguns descendentes e principalmente visitantes. A bandeira confederada era ostentada pela Ku Klux Klan, por exemplo. A organização supremacista branca de extrema-direita foi fundada por ex-membros do exército confederado e se disseminou ao longo do século 20 com linchamentos e outros crimes de ódio contra negros, estrangeiros, judeus, católicos, comunistas, liberais etc.

Organizadores e membros da comunidade tentaram defender e manter o evento. Em entrevista ao jornal The New York Times, o engenheiro brasileiro Cícero Carr afirmou, em 2016, que os descendentes de confederados de Santa Bárbara não são racistas. "Estamos apenas reverenciando nossos ancestrais que tiveram o bom senso de se fixar no Brasil", justificou.

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Grupos antirracistas e de defesa dos direitos das populações negras passaram a protestar contra a Festa Confederada. A festa passou a sofrer ainda mais pressões para remover os símbolos da Confederação após o assassinato de George Floyd, em 2020, e o movimento Black Lives Matter, contra a brutalidade policial que tem como alvo os negros.

Em 2021, foi proposto um projeto que proíbe o uso de símbolos segregacionistas e racistas pela cidade. A ideia não era impedir a festa, mas remover a ostentação pública da bandeira e outros elementos que remetem à escravidão e a crimes de ódio de organizações como a Ku Klux Klan contra as populações negras.

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Eduardo Bolsonaro saiu em defesa da Festa Confederada após visitar Santa Bárbara em 2022. Parte da Fraternidade Descendência Americana (que organizava a festa) recebeu o deputado à época, reportaram veículos locais. O alinhamento da instituição com o então governo gerou críticas de que o evento e a memória da comunidade americana não fossem o xis da questão, mas sim alianças com políticos que mantêm alianças com o Trumpismo.

Bandeira confederada acabou oficialmente proibida em 2022, e a festa foi cancelada em 2023, sem maiores explicações. Em 2024, ela foi substituída por um piquenique aberto aos descendentes e amigos da Fraternidade Descendência Americana.

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