China é primeiro país do mundo a ter amostras do lado oculto da Lua

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Pela primeira vez na história, um programa espacial traz amostras colhidas na face oculta da Lua, o hemisfério lunar jamais visto da Terra. A primazia cabe à China, com a missão Chang’e 6, que viu seu ato final durante a reentrada atmosférica fervente da cápsula contendo as preciosas rochas, para um pouso auxiliado por paraquedas na região da Mongólia Interior na madrugada desta terça (25).

O pouso ocorreu às 3h07 (de Brasília) e, para surpresa geral, contou com transmissões ao vivo pela internet tanto em mandarim quanto em inglês.

Como é costumeiro, a CNSA (agência espacial chinesa) não facilitou para que o público acompanhasse o andamento da missão, sem divulgar oficialmente alguns dos marcos que antecederam o retorno à Terra.

Isso, contudo, não impediu que astrônomos e radioastrônomos amadores monitorassem o andar da carruagem espacial. Mesmo sem decodificar os sinais de rádio enviados pela nave ao controle da missão, é possível não só identificar a posição aproximada dela no céu como detectar alterações de velocidade e até mesmo fotografá-la com telescópios.

Essa colaboração internacional envolveu até mesmo pesquisadores brasileiros, como Cristóvão Jacques, que opera o observatório Sonear, instalado atualmente em Caeté (MG), responsável pela descoberta de diversos asteroides e cometas ao longo dos últimos anos. Jacques conseguiu registrar a sonda em seu retorno à Terra na última sexta (21) e sábado (22). “Tive dificuldade de encontrar a ‘bicha’ de novo, mas uma busca em volta da região prevista resolveu o problema”, contou à reportagem.

As observações se revelaram consistentes com uma partida da órbita lunar em algum ponto da sexta-feira (Jacques diz tê-la fotografado nesse dia a apenas cinco graus da Lua quase cheia, “uma captura realmente complicada”), e o retorno esperado para a madrugada desta terça (25), como de fato aconteceu.

A manobra de reentrada envolveu primeiro um suave ricochete na atmosfera, a fim de perder um pouco da velocidade de chegada, seguida pela reentrada. O escudo térmico fez sua parte para proteger a cápsula, que então desceu com paraquedas e foi resgatada por equipes da CNSA.

O material será levado a um laboratório especial, onde as amostras poderão ser catalogadas e analisadas sob um ambiente de nitrogênio puro, a fim de evitar qualquer contaminação pela atmosfera terrestre (o oxigênio, em particular, é muito reativo).

A expectativa é que as rochas e o rigolito (poeira lunar), colhidos por uma pá e uma perfuratriz nas imediações do sítio de pouso, na cratera Apollo, localizada na região conhecida como bacia Polo Sul-Aitkin, tragam respostas a várias dúvidas que ainda pairam sobre a Lua.

Um estudo publicado nesta segunda-feira (24) no periódico The Innovation por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências indica que, apesar das restrições de coleta, sem grande mobilidade, o material deve ter composições variadas –em sua maioria rochas vulcânicas, mas também uma pequena quantidade de material ejetado de outras partes da superfície por impactos de meteoritos.

A expectativa é que o estudo dessas rochas permita iluminar uma questão crucial: por que o hemisfério lunar voltado para a Terra, com grandes bacias produzidas por vulcanismo, os chamados “mares”, é tão diferente do hemisfério oculto, mais antigo e coberto por crateras?

“Há diferenças significativas entre o lado afastado e o lado próximo da Lua, em termos de espessura da crosta lunar, atividade vulcânica, composição etc.”, diz em nota Zongyu Yue, primeiro autor do artigo no The Innovation. “As amostras da Chang’e 6, sendo as primeiras obtidas do lado afastado da Lua, devem responder uma das questões científicas mais fundamentais da pesquisa lunar: que atividade geológica é responsável pelas diferenças entre os dois lados?”

A realização, inédita na história da exploração espacial, já representa a segunda vez que a China faz algo no espaço que nenhum outro país fez. A primeira ocorreu em 2019, com a Chang’e 4, com sua pioneira alunissagem no lado afastado da Lua, mas daquela vez sem colher amostras para reenvio à Terra.

UMA JORNADA DE 53 DIAS

Como previsto originalmente pela CNSA, a missão da Chang’e 6 durou pouco menos de dois meses. Lançada de Wenchang em 3 de maio com um foguete Chang Zheng 5 (Longa Marcha 5), ela atingiu a órbita lunar pouco menos de cinco dias depois, no dia 8. O veículo de quatro módulos passou um bom tempo em órbita lunar, até o amanhecer na região de pouso, no fim de maio. A alunissagem do módulo de descida se deu no dia 1º de junho, e rapidamente o braço robótico e os experimentos científicos se puseram a trabalhar.

Uma pequena bandeira chinesa, feita de uma fibra de basalto, foi estendida do módulo, e um minirrover avançou para longe, explorando a composição do solo e tirando fotos do módulo de pouso.

O material colhido pela sonda, estimado em cerca de 2 kg, e, 49 horas depois do pouso, o módulo de ascensão voltava à órbita lunar com elas, para um encontro e acoplagem com a nave-mãe e a cápsula de retorno, em 6 de junho.

As amostras foram transferidas logo após a acoplagem, e o módulo de ascensão foi descartado, para colidir com a superfície lunar (mais um evento não reportado pelos chineses, mas identificado por radioastrônomos amadores, e nada surpreendente, já que o mesmo procedimento foi adotado para a missão de retorno de amostras Chang’e 5, em 2020).

A Nasa, por meio do orbitador Lunar Reconnaissance Orbiter, fotografou o módulo de pouso da Chang’e 6 no dia 7 de junho, o que forneceu coordenadas exatas do local da alunissagem (a pouco mais de 16 km do centro da elipse de pouso prevista para a missão).

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