Chefe da COP28, que também comanda petroleira, nega uso de evento para vender petróleo

DUBAI, EMIRADOS ÁRABES UNIDOS (FOLHAPRESS) – O presidente da COP28, Sultan al-Jaber, negou nesta quarta-feira (29) estar utilizando o evento de combate ao aquecimento global para facilitar a venda de gás e petróleo provenientes da empresa que preside, a estatal Adnoc (Abu Dhabi National Oil Company).

“Sabendo que estamos a apenas um dia do evento, eu realmente não estava planejando responder a uma pergunta desse tipo, mas sabe de uma coisa? Eu vou responder”, começou ele, demonstrando desconforto com a questão durante encontro com a imprensa internacional em Dubai.

“Serei muito claro. Para vocês, para todos na sala e para aqueles que estão online. Essas alegações são falsas, não são verdadeiras, são incorretas e não são precisas. E é uma tentativa de minar o trabalho da presidência da COP28”, afirmou.

O caso veio à tona na segunda-feira (27), quando a BBC e o Center for Climate Reporting (CCR) publicaram uma reportagem em conjunto expondo documentos que teriam sido preparados para Al-Jaber, por sua equipe da COP, com planos para discutir acordos de combustíveis fósseis por com 15 países -entre eles, o Brasil.

Os documentos falam, por exemplo, que a Adnoc está pronta para apoiar a Colômbia na exploração de combustíveis fósseis ou que a estatal árabe poderia se associar à China para explorar gás em Moçambique, Canadá e Austrália.

No caso do Brasil, segundo o material obtido pela BBC, o país-sede da COP28 teria a intenção de solicitar a Marina Silva ajuda para “garantir o alinhamento e o endosso” em relação a uma oferta da Adnoc para a compra de parte da maior empresa petroquímica da América Latina, a Braskem.

No início deste mês, a Adnoc fez uma oferta de US$ 2,1 bilhões (R$ 10,3 bilhões) para adquirir uma participação importante na Braskem.

Em evento em Brasília nesta terça (28), Marina negou ter sido abordada pela presidência da COP sobre esse tema. “Em hipótese nenhuma”, respondeu Marina, questionada pela Folha de S.Paulo sobre os documentos vazados.

“Não tenho controle dos assuntos que as pessoas dizem que vão tratar [comigo], mas comigo não foi tratado. E se porventura tivesse, teria sido com a pessoa errada, por que o que tenho eu a ver com a Braskem?”, questionou.

Combustíveis fósseis são os maiores responsáveis pelo aquecimento do planeta em relação à era pré-industrial -e uma das principais razões para que a COP aconteça todo ano, numa tentativa de baixar seu consumo. Carvão mineral, gás natural e o petróleo são combustíveis fósseis com alta quantidade de carbono usados para alimentar atividades industriais no mundo todo.

Com frases como “precisamos fechar o fosso entre a ambição e a ação” e “isso é o bastante? Nada é o bastante para mim”, Al-Jaber buscou nesta quarta-feira se apresentar como um mediador entre os dois pontos de vista sobre os combustíveis fósseis -o da indústria e o do ativismo climático.

A fala de Al-Jaber aconteceu em um discurso de pré-abertura do evento, com a presença de cerca de 20 jornalistas, o da Folha de S.Paulo entre eles. Ele respondeu a apenas duas perguntas.

Após negar utilizar o evento para fazer negócios, Al-Jaber continuou: “Deixe-me fazer uma pergunta. Você acha que os Emirados Árabes Unidos ou eu precisaríamos da COP ou da presidência da COP para estabelecer negócios ou relacionamentos comerciais? Este país, nos últimos 50 anos, foi construído em torno de sua capacidade de construir pontes e criar relacionamentos e parcerias”.

“Eu prometo a vocês, nunca vi esses pontos insignificantes aos quais eles se referem ou sequer usei tais pontos insignificantes em minhas discussões. Agora, às vezes me dizem que você precisa se envolver com governos e empresas de petróleo e gás para exercer pressão. E às vezes me dizem que você não pode fazer isso. Então, estamos condenados se fizermos e condenados se não fizermos”, finalizou.

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