Celtas podem ter tido dinastias transmitidas pelo lado materno

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Chefes celtas enterrados em sepulturas repletas de luxo por volta de 500 a.C. podem ter formado dinastias nas quais o poder era transmitido pelo lado materno da família, e não pela linhagem masculina. A hipótese vem de análises de DNA de prováveis membros desse povo, cujos restos mortais foram achados no sudoeste da atual Alemanha.

Os dados genômicos levantados pela equipe do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista, em Leipzig, vêm de 31 indivíduos da região, incluindo tanto homens quanto mulheres. As pessoas sepultadas em monumentos funerários ali estão associadas a duas tradições de artefatos, conhecidas como cultura Halstatt e cultura La Tène (a segunda seria uma continuação da primeira).

Ambas essas culturas arqueológicas ocupam áreas que os escritores da Antiguidade associam aos povos classificados como celtas. Hoje, as línguas célticas sobrevivem apenas em parte do litoral atlântico europeu, em locais como a Bretanha francesa, o País de Gales e a Irlanda, mas sabe-se que seus falantes estavam muito mais espalhados pelo continente no passado.

Ocupavam, inclusive, boa parte dos atuais territórios da Espanha e de Portugal, bem como a França, o norte da Itália e regiões da Alemanha e da Suíça antes do avanço do Império Romano. Seus idiomas têm parentesco distante com o latim, ancestral do português. Eram famosos, entre outras coisas, pela metalurgia refinada e pelo espírito guerreiro, mais tarde abordado com humor nos quadrinhos dos personagens Asterix e Obelix (ambos gauleses, nome dado aos celtas da atual França).

Os autores do novo estudo, liderados por Johannes Krause, Stephan Schiffels e Dirk Krausse, analisaram o material genético de indivíduos encontrados nos chamados “Fürstengräber” (“túmulos principescos”).

Essas sepulturas datam do período entre 600 a.C. e 400 a.C., mais ou menos a fronteira entre as culturas Halstatt e La Tène. São caracterizadas pela construção de tesos (morros artificiais), debaixo dos quais havia câmaras com carroças ricamente decoradas, móveis, joias, taças e mercadorias importadas de cidades gregas ou etruscas (na atual Itália central).

Em um dos sítios estudados, o de Asperg-Grafenbühl, foi achada, por exemplo, uma esfinge de marfim com rosto de âmbar, esculpida por artistas gregos. Toda essa sofisticação sugere que os ocupantes das tumbas pertenciam a famílias de poderosos chefes militares, políticos ou religiosos —e talvez fossem tudo isso ao mesmo tempo.

As análises feitas pelos pesquisadores mostraram um parentesco próximo pela linhagem materna entre os principais ocupantes de duas das sepulturas mais ricas de toda a pré-história europeia —justamente o de Asperg-Grafenbühl, de um lado, e o de Eberdingen-Hochdorf.

O mais provável é que eles fossem, respectivamente, sobrinho e tio —a mãe do primeiro seria irmã do segundo. Outra possibilidade é que eles fossem neto e avô, sendo a mãe do primeiro filha do segundo. O parentesco talvez explique também o fato de que ambos os indivíduos eram muito altos para a época, com mais de 1,80 m.

O monumento de Eberdingen-Hochdorf aparece ainda em outra análise: outro indivíduo enterrado nele pode ter sido bisneto de uma mulher que foi enterrada a 100 km de distância dele e viveu cerca de um século antes. Essa dama também estava cercada de objetos preciosos em seu enterro.

Escritores da Antiguidade já tinham mencionado a existência de dinastias pelo lado materno, e não paterno, entre os celtas, e os dados genômicos parecem dar mais peso a essa possibilidade. Segundo os autores do estudo, trata-se de um sistema de transmissão hereditária do poder que aparece quando a instituição da monogamia não está bem estabelecida, e existem dúvidas sobre a paternidade de uma criança, enquanto a maternidade dela raramente é questionada.

Esse sistema matrilinear, no entanto, não necessariamente é a mesma coisa que um matriarcado (poder político nas mãos das mulheres), embora a influência política feminina possa aumentar graças a ele.

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