Brasil tem mais de 10 mil refugiados indígenas; maioria está em Roraima

BOA VISTA, SP (FOLHAPRESS) – Paola Abache subiu na passarela como se não encarasse a mesma insegurança de quando cruzou a fronteira de Santa Elena do Uairén, na Venezuela, com Pacaraima (RR). Disse para si mesma: “eu estou aqui, eu posso”.

Talvez tenham sido os quase quatro anos de trajetória como migrante que deram a força que faltava para ela se apresentar aos jurados –vestindo roupas emprestadas das amigas e maquiagem feita por elas, de graça– e sair orgulhosa do concurso Miss Trans Roraima com a faixa no peito, em outubro deste ano.

Abache, 23, é uma dos mais de 10 mil indígenas que buscaram o Brasil para refúgio desde 2017. Ela é da etnia warao, majoritária em um grupo que conta ainda com representantes de povos pemon, kariña, e’ñepa e wayúu, entre outros.

Abache diz que, além da vontade de correr e gritar para comemorar, seu primeiro pensamento após a vitória foi na mãe. “Queria abraçar ela”

A família da indígena continua toda no estado venezuelano de Delta Amacuro, um dos que compõem a região do delta do rio Orinoco, no Nordeste do país. A área é território habitado pelos waraos há milênios, mas um processo de deslocamento interno de áreas rurais para urbanas já havia começado mesmo antes de parte considerável da etnia migrar.

O último censo venezuelano, de 2011, contou cerca de 50 mil waraos no país. Mais de 7.000 pediram refúgio no Brasil. A particularidade de cada história não esconde uma situação que perpassa o fluxo migratório como um todo: pobreza, dificuldade de acesso à saúde e violência e insegurança extrema pesam na decisão para deixar o território natal.

A chegada dos indígenas, concomitante ao crescimento do fluxo de migrantes e solicitantes de refúgio venezuelanos não indígenas, mostrou que a resposta humanitária desenvolvida pela Operação Acolhida –que envolve o Ministério do Desenvolvimento Social e outras instituições federais, o Exército brasileiro, além de agências internacionais e ONGs– precisaria se adaptar às particularidades dessa população.

Exemplos disso são as concepções diferentes que eles têm de família e de casa, de convivência em grupo e seus hábitos alimentares. A percepção dessas necessidades resultou na criação de abrigos exclusivos para indígenas.

“É muito importante que qualquer refugiado possa participar na construção da resposta humanitária. Consultamos a comunidade porque a resposta tem que ser culturalmente adequada”, afirma Davide Torzilli, representante do Acnur no Brasil.

A meta, no entanto, é trabalhar para que os espaços, ainda que adaptados, sejam transitórios. “Os abrigos são espaços supostamente temporários, e muitos grupos estão vivendo neles há anos, não é o ideal. Temos que seguir com a construção de políticas públicas que facilitem a autonomia das populações indígenas”, diz Torzilli.

Isso vale também para os não indígenas. Cerca de 70% dos que ingressam nos abrigos permanecem neles por até seis meses antes de buscar um local próprio na região ou de se mudar para outras cidades e estados. A saída dos indígenas, no entanto, é mais complexa por suas particularidades culturais, e resulta em menor rotatividade nos abrigos.

Abache mora no maior dos três abrigos indígenas de Roraima, o Waraotuma a Tuaranoko (em português, “local de descanso dos waraos”, embora ele também receba outras etnias), que hoje conta com uma população de 1.290 pessoas (ele tem capacidade para 1.500). Ao todo, são 2.059 os indígenas em abrigos roraimenses, quase um terço do total de 7.673 indivíduos abrigados.

Há ali espaços de alimentação coletivos, com pias e pequenos fogões a lenha. As unidades habitacionais, doadas pelo Acnur (agência da ONU para refugiados), também têm áreas maiores do que aquelas dos abrigos não indígenas para contemplar suas famílias estendidas, e estruturas de madeira para pendurar redes. Há ainda espaços reservados para a produção de artesanato a partir da fibra do buriti.

A palmeira de origem amazônica, abundante no delta do Orinoco e na região Norte do Brasil, é a “árvore da vida” para os waraos, segundo Argenia del Valle, 44, moradora do Tuaranoko e uma das artesãs do abrigo. “Dela tiramos a fibra para as redes e o artesanato, o sumo, o amido para comer, como a macaxeira. É muito sagrada para nós.”

“O artesanato que fazemos, para mim, é arte, traz a história de quem somos: waraos, da Venezuela, migrantes”, afirma Del Valle. Ela também já exerceu a função de professora voluntária para jovens indígenas sobre a cultura warao e integrou o comitê de educação do abrigo.

Assim como nos espaços para não refugiados, os moradores se dividem para organizar o uso dos espaços de convivência, participar da manutenção das áreas comuns e manter uma comunicação com a coordenação dos abrigos, feita por agências da ONU e ONGs.

As lideranças indígenas eleitas escutam as demandas da comunidade, dão conselhos, responsabilizam-se por manter a coesão do grupo e a organização dos espaços coletivos e se reúnem periodicamente com a coordenação.

Mesmo jovem, aos 21 anos, Abache fez por sete meses parte da liderança do abrigo anterior em que morou, hoje desativado. “No começo não tive apoio dos outros líderes, faziam reuniões sem me avisar e me culpavam por problemas. Porque eu era mulher trans, não tinha experiência”, conta ela.

“Lutei para que me aceitassem. Dizia: ‘vocês são os mais velhos aqui, têm que me dar conselhos. Não quero aprender coisas ruins de vocês, quero aprender coisas boas’.”

A indígena está terminando os estudos no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e quer trabalhar com direitos humanos no futuro. Ela tem como referência Joenia Wapichana, primeira mulher indígena a se tornar advogada do Brasil, que atuou por anos no Conselho Indígena de Roraima e é hoje presidente da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). “Quero ajudar e defender meu povo”, diz Abache.

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