Domingo, 9 de Agosto de 2026 | 17h06m
Vitória News — Um jornal de verdade
Sustentabilidade

Brasil aposta em biocombustíveis para reduzir emissões do transporte marítimo

Indústria, governo e setor produtivo discutem uso do etanol, eficiência energética e regras internacionais capazes de preservar a competitividade das exportações brasileiras

Vitória News 05/08/2026 09:34
Brasil aposta em biocombustíveis para reduzir emissões do transporte marítimo
Foto: Juline Pogorzelski/Br61

A busca por alternativas aos combustíveis fósseis no transporte marítimo ganhou espaço na agenda da indústria e do governo brasileiro. Representantes dos setores público e privado se reuniram nesta terça-feira (4) para discutir políticas e soluções capazes de reduzir as emissões da navegação sem comprometer a competitividade do comércio exterior.

O encontro foi promovido pela Confederação Nacional da Indústria, em parceria com o Ministério da Defesa e a Bioenergia Brasil. Entre os principais temas estiveram o uso de biocombustíveis, a eficiência energética das embarcações e os efeitos das futuras regras internacionais de descarbonização sobre os produtos brasileiros.

O debate é considerado estratégico porque aproximadamente 96% das mercadorias exportadas pelo Brasil, considerando o volume transportado, deixam o país por via marítima. Diante dessa dependência, representantes da indústria defendem que a transição energética leve em conta as distâncias percorridas, o perfil das cargas e as características econômicas dos países exportadores.

O Brasil participa das discussões conduzidas pela Organização Marítima Internacional para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no setor. A preocupação é que novos mecanismos econômicos e ambientais não acabem criando custos desproporcionais para países mais distantes dos grandes centros consumidores.

O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, destacou que a navegação ainda depende fortemente dos combustíveis fósseis e precisa incorporar alternativas de menor impacto ambiental. Segundo ele, o uso conjunto de biocombustíveis e combustíveis tradicionais pode contribuir para diminuir a pegada de carbono durante o processo de transição.

O comandante da Marinha, almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen, ressaltou a importância do transporte marítimo para as trocas comerciais brasileiras. Na avaliação dele, a relevância do modal exige que o tema esteja presente na agenda política e resulte em políticas públicas específicas.

O etanol brasileiro apareceu como uma das principais alternativas para reduzir as emissões das embarcações. Representantes do setor produtivo defenderam que o país possui experiência, capacidade de produção e vantagens competitivas que podem ampliar a participação do biocombustível na navegação internacional.

O presidente da Copersucar, Tomás Manzano, avaliou que os conflitos geopolíticos podem alterar a velocidade da transição energética. Momentos de instabilidade e aumento dos preços do petróleo tendem a tornar os biocombustíveis mais atraentes economicamente, fortalecendo soluções que já estão disponíveis.

Além de reduzir emissões, a ampliação do etanol no transporte marítimo pode abrir novos mercados para a produção brasileira. O avanço, porém, dependerá de investimentos, escala, infraestrutura de abastecimento, adaptação dos motores e segurança regulatória.

A eficiência energética também foi apontada como parte fundamental da descarbonização. O setor considera que a substituição dos combustíveis precisa ocorrer em conjunto com tecnologias capazes de reduzir o consumo das embarcações.

O representante da Wärtsilä, Mario Barbosa, destacou que navios mais eficientes utilizam menos combustível, diminuem custos operacionais e emitem quantidades menores de dióxido de carbono e outros gases. A combinação entre novos combustíveis e equipamentos mais econômicos pode acelerar os resultados ambientais.

As regras internacionais estiveram entre as principais preocupações apresentadas durante o encontro. O representante da Vale, João Arantes, alertou que os mecanismos econômicos criados para estimular a descarbonização não podem transferir competitividade entre países por fatores relacionados apenas à geografia ou à distância dos mercados compradores.

O risco, segundo o setor, é que cobranças sobre emissões encareçam de forma desigual as exportações de países que precisam transportar mercadorias por trajetos mais longos. Por isso, a indústria brasileira defende critérios que reconheçam a eficiência ambiental sem penalizar determinadas economias por sua localização.

Para o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, discutir o transporte marítimo significa tratar diretamente do futuro da economia brasileira. Ele destacou que a indústria, incluindo agroindústria, mineração e petróleo e gás, representa parcela expressiva do Produto Interno Bruto e da arrecadação federal.

A descarbonização da navegação surge, assim, como uma oportunidade e um desafio para o Brasil. O país busca aproveitar sua capacidade de produção de biocombustíveis, ao mesmo tempo em que tenta evitar que novas regras ambientais elevem custos e reduzam a competitividade de suas exportações.

O avanço dessa agenda dependerá da articulação entre governo, indústria, produtores de combustíveis e empresas de navegação. A definição de políticas públicas, incentivos, padrões tecnológicos e mecanismos internacionais equilibrados será decisiva para transformar o potencial brasileiro em participação efetiva no mercado de combustíveis marítimos sustentáveis.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas