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Bolívia escolhe novo presidente em 1ª eleição em 20 anos sem a esquerda

FolhaPress 19/10/2025 09:15

LA PAZ, BOLÍVIA (FOLHAPRESS) - Até parece mais um fim de semana comum em La Paz, com lojas movimentadas, turistas visitando o Mercado das Bruxas e famílias enfrentando as ladeiras da cidade. Mas quando os bolivianos forem às urnas neste domingo (19), estarão vivendo um momento inédito na história política recente do país.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

É a primeira vez que o país tem um segundo turno desde a reforma constitucional de 2009, e o evento marca o fim de quase 20 anos de vitórias do MAS (Movimento ao Socialismo).

Com o ex-presidente Evo Morales impedido de tentar um quarto mandato e com o atual governante, Luis Arce, desgastado pela situação econômica e tendo desistido de tentar a reeleição, a esquerda não conseguiu ir além da quarta colocação no primeiro turno, em agosto.

Os candidatos que concorrem no segundo turno são o senador Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, e o ex-presidente Jorge Quiroga, da aliança Livre. Ambos têm inclinações de centro-direita e direita.

Rodrigo Paz, 58, é um político de Tarija, no sul do país. É visto como um nome da centro-direita que conseguiu apoio popular em áreas tradicionalmente dominadas pelo MAS e é filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora. Sua plataforma inclui descentralização do Estado e um "capitalismo para todos" para estimular a economia.

SESC PICASSO

"Quero dizer que o presidente libere os combustíveis que estão guardando para prejudicar a população", disse Paz, ao comentar a crise do governo Arce. Ele prometeu negociar diretamente com distribuidoras para resolver a situação, caso seja eleito.

Tuto Quiroga, 65, é um conservador que já governou a Bolívia de 2001 a 2002, após a renúncia de Hugo Banzer, de quem era vice. Nascido em Cochabamba, ele já tentou a Presidência três outras vezes, tem uma agenda mais voltada ao mercado e propõe cortar empregos públicos e privatizar recursos naturais.

"Os do outro lado dizem que são candidatos da renovação. Olho para eles, têm a idade do meu irmão, e estão há 20 anos dando voltas por aí", disse Quiroga, em referência ao adversário, ao encerrar sua campanha em Santa Cruz, na terça-feira (14).

Ambos os candidatos enfrentam um cenário difícil para governar, pois não têm uma maioria no Parlamento, e o novo presidente terá que formar alianças em um ambiente propenso à agitação social.

CONTADOR - BONUS

Sem nunca ter liderado as pesquisas, Rodrigo Paz surpreendeu e ficou na frente no primeiro turno, com 32,15% dos votos, seguido por Jorge Quiroga (26,86%), enquanto Samuel Doria Medina ficou com 19,87%. Os votos nulos, defendido por Evo como forma de protesto, totalizaram 19,4%, o que sugere uma considerável base de apoio do líder esquerdista. Os votos em branco foram 2,45%.

Na última pesquisa da Ipsos Ciesmori, encomendada pelo canal Unitel, Tuto Quiroga ampliou a sua vantagem sobre Paz, chegando a 44,9%, ante 36,5% do adversário. A diferença entre os dois cresceu para 8,4 pontos, superando os 7,7 pontos registrados em setembro.

Os indecisos eram 9,3%, 3,7% disseram votar em branco e 5,6% optaram por anular. Tuto tem 55% dos votos válidos ante 45% de Paz. A pesquisa foi feita de 6 a 9 de outubro, com uma amostra de 2.500 entrevistas. A margem de erro é de 2,2 pontos, para mais ou menos, e o nível de confiança é de 95%.

Em uma das linhas de teleféricos que atravessa a cidade, a aposentada María Milagros, 67, explica a um turista chileno um sentimento que resume o cenário eleitoral na Bolívia na véspera do pleito. "Qualquer um deles pode ganhar. Tuto é conhecido por todos e representa a política tradicional e o confronto com Evo Morales; Paz tem apelo entre os mais jovens, apesar de ser filho de um político."

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Nos dias que precedem as eleições de domingo, a atenção dos bolivianos parece estar menos em quem vencerá do que nos problemas do cotidiano, sobretudo a alta dos preços, a disparada do dólar e a escassez de gasolina e diesel. Arce vai entregar um país em dificuldades para conseguir os dólares necessários para importar combustível. O próximo presidente enfrentará esses desafios urgentes.

"As pessoas não querem saber se o próximo presidente vai ser de esquerda ou de direita, só querem alguém que resolva os problemas do país. Ninguém quer ficar horas em filas esperando para abastecer ou ver o salário ficar todo no carrinho de compras", avalia o professor Guillermo Domingues, 38, em um supermercado no centro de La Paz. Em setembro, a inflação em 12 meses foi de 23,3%, mas era de 6,18% no mesmo período de 2024.

A eleição também é importante para as relações internacionais da Bolívia. Evo e Arce mantiveram laços com países que se opõem aos Estados Unidos, mas tanto Paz como Quiroga indicaram a intenção de melhorar as relações com o governo de Donald Trump. A Casa Branca, por sua vez, vê a mudança de ciclo na Bolívia como uma oportunidade de reaproximação.

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