Biden admite mau desempenho em debate, mas se reafirma como candidato contra Trump

ATLANTA, EUA (FOLHAPRESS) – O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, reconheceu em um comício na Carolina do Norte nesta sexta-feira (28) a performance ruim no debate realizado na véspera, mas se reafirmou como candidato em meio a uma crise do Partido Democrata em torno de sua possível substituição na chapa.

“Eu sei que não sou um homem jovem. Isso é óbvio. Eu não ando tão bem, não falo tão bem, não debato tão bem quanto eu debatia, mas sei como falar a verdade. Sei diferenciar o certo do errado, sei fazer esse trabalho”, disse, sob aplausos de apoiadores.

“Pessoal, eu dou a vocês minha palavra como um membro da família Biden: eu não estaria concorrendo de novo se eu não acreditasse, com todo meu coração e minha alma, que sou capaz de fazer esse trabalho. Porque, para ser sincero, o risco é muito alto.”

O presidente completou que, como um americano, sabe que, “quando você é derrubado, você se levanta.”

Em contraste com a voz rouca e os lapsos de memória vistos na véspera, o presidente reemergiu com uma postura incisiva e segura. No discurso, ele também apontou diversas declarações falsas feitas por Donald Trump na véspera e repetiu uma das poucas frases memoráveis do debate: “ele tem a moral de um gato de rua”.

Rodeado por apoiadores, pela primeira-dama, Jill, e o governador do estado, Roy Cooper, o democrata disparou ataques ao adversário, acusando-o sobretudo de ser uma ameaça à democracia.

O comício serviu como uma resposta ao tema que dominou os EUA após o desempenho ruim do democrata no debate: quem poderia ser um plano B do partido, e como.

Os nomes mais citados até agora são os governadores Gavin Newsom (Califórnia), Gretchen Whitmer (Michigan), J.B. Pritzker (Illinois) e Josh Shapiro (Pensilvânia). Também integram o rol de potenciais substitutos a vice-presidente, Kamala Harris, e o secretário de Transportes, Pete Buttigieg.

Nenhum deles deu qualquer sinal publicamente até agora de interesse em assumir a missão. Após o debate, Newsom foi questionado diretamente sobre a possibilidade e a negou, afirmando estar totalmente ao lado do presidente.

O caminho para uma substituição é tortuoso. Como as primárias já acabaram, e Biden obteve com folga o número de delegados necessários para ser nomeado na convenção partidária, em agosto, na prática a única forma de reabrir a disputa seria se o presidente desistisse.

Nesse caso, as centenas de delegados partidários ficariam livres para escolher um outro nome, abrindo caminho para uma disputa interna entre os pré-candidatos a ser decidida na convenção.

“Nós todos vimos o que acabou de acontecer. Nós temos 35 delegados livres caso alguém queira contestar a convenção para salvar vidas e a nossa democracia”, declarou, por exemplo, o movimento de boicote a Biden nas convenções, em protesto por seu apoio a Israel no conflito em Gaza.

Na outra ponta, o ex-presidente Barack Obama saiu em defesa de Biden nesta sexta. “Más noites de debate acontecem. Confie em mim, eu sei”, disse em seu perfil no X.

“Mas esta eleição ainda é uma escolha entre alguém que lutou por pessoas comuns toda a sua vida e alguém que só se importa consigo mesmo. Entre alguém que diz a verdade; que sabe distinguir o certo do errado e que falará com franqueza ao povo americano — e alguém que mente descaradamente para seu próprio benefício. A noite passada não mudou isso, e é por isso que tanto está em jogo em novembro”, completou.

O líder dos democratas na Câmara, Hakeem Jeffries, e a ex-presidente da Casa, Nancy Pelosi, também reafirmaram seu apoio a Biden nesta sexta.

Ao lado dessa ala democrata estão os republicanos, que, fortalecidos diante da imagem de um Biden fraco, também tentam derrubar a ideia de substituí-lo.

“Estou ouvindo que os democratas estão querendo substituí-lo, mas ele é o candidato deles. Ele é o indicado democrata. E essa é a escolha, a escolha clara que os americanos terão em novembro entre o Presidente Trump e seu histórico de sucesso e Joe Biden e seu fracasso”, disse à Folha Danielle Alvarez, porta-voz da campanha republicana.

Na mesma linha, Jason Miller, conselheiro de campanha de Trump, afirmou que não existe a possibilidade de troca na chapa adversária a essa altura do campeonato.

A crise entre os democratas ficou clara logo após o fim do embate: nenhum representante do partido estava disponível no tradicional momento de dar entrevistas à imprensa para tentar enviesar a cobertura a favor de seu candidato. Republicanos, em contraste, abundavam.

“Francamente, a performance foi quase um pouco triste de assistir às vezes. Houve momentos nos primeiros minutos em que começamos a ouvir que a campanha de Biden começou a falar que ele estava resfriado. Resfriado ou não, do começo ao fim, Biden simplesmente não tinha o que precisava”, disse à reportagem Brian Hughes, conselheiro-sênior da campanha de Trump.

Quando finalmente os democratas apareceram, foi em conjunto. Em seis pessoas, eles fugiram de responder perguntas sobre a performance vacilante de Biden. Logo ficou claro a mensagem combinada: o que importa é a substância, o conteúdo, e, nesse sentido, o presidente teria se saído melhor diante das mentiras de Trump.

“Sou um pouco antiquado. Eu me importo com substância. Eu me importo com políticas. Eu me importo com fatos. Eu me importo com as pessoas sendo responsáveis por suas mentiras. O que vi esta noite foi a fraqueza de Donald Trump disfarçada de força. O cara foi incapaz de responder qualquer pergunta diretamente”, afirmou Newsom.

“Na minha humilde perspectiva, isso não é sobre estilo”, disse, repetindo a mensagem que a campanha tenta passar para apagar o incêndio na sua chapa à Presidência.

Michael Tyler, diretor de comunicações da campanha de Biden, também fugiu da pergunta obre performance, assim como os deputados, senadores, e até a ex-mulher de Trump, Mary, que falaram em defesa do presidente.

O deputado Robert Garcia, de origem latina, destacou os repetidos ataques do empresário aos imigrantes no debate. “Donald Trump, esta noite, redobrou sua retórica anti-imigrante. Ele disse que os imigrantes estão criando um ninho de ratos neste país, que somos um país incivilizado porque trazemos imigrantes. Isso é ofensivo para a comunidade latina e para os imigrantes que ajudaram a construir os Estados Unidos”, afirmou.

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