Barry Keoghan vira pai e tira sarro de ‘Saltburn’ em ‘Bird’, filme sensível em Cannes

CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) – Não é uma temporada fácil para as mulheres em Cannes -ao menos nas telas. Fora delas, elas podem até ter conquistado uma Palma de Ouro honorária, com Meryl Streep, e a presidência do júri, com Greta Gerwig, mas nos três primeiros filmes exibidos na competição elas sofrem terrivelmente.

Primeiro foi a trama sobre uma jovem metralhada pelo machismo, em “Wild Diamond”. Depois, o drama do aborto e da maternidade, em “The Girl with the Needle”. Nesta quinta-feira (16), “Bird” engrossou o caldo, abordando temas como violência doméstica e o não-conformismo de uma adolescente.

Nome fortíssimo do cinema independente britânico, Andrea Arnold desfilou com seu longa na Croisette e mostrou ao público desta edição do Festival de Cannes o primeiro forte candidato à Palma de Ouro. Seu filme, por mais intimista que seja, deve conquistar muitos corações.

“Bird” narra a história de Bailey -a excelente Nykiya Adams, estreante-, uma menina de 12 anos que mora num bairro pobre de Kent, na Inglaterra, com o pai, personagem de Barry Keoghan. Quando ele anuncia que a nova namorada vai se mudar com eles, a protagonista tem uma crise e, a partir dela, vamos adentrando seu microcosmo caótico.

Sabemos que ela tem um irmão mais velho que integra uma gangue de justiceiros e que sua mãe mora com outros três irmãos, esses menores, e entra num relacionamento mais abusivo que o outro. Na lista de contatos há ainda o Bird do título, um sujeito de comportamento estranho e infantilizado que surge perto de sua casa, interpretado por Franz Rogowski.

São vários os dramas que atravessam a vida de Bailey, neste coming of age que mostra um nível de maturidade inédito no trabalho de Arnold, diretora também do ótimo “Docinho da América”, de episódios de “Big Little Lies” e do curta “Wasp”, vencedor do Oscar.

Neles todos, aborda dilemas femininos com uma força que, por mais potente que seja, nunca barra a sensibilidade e a delicadeza de seu olhar. A fórmula se repete em “Bird”, que também remete aos antecessores por seu retrato cru e, portanto, muito honesto da vida de seus personagens.

É fácil se relacionar com eles, mesmo quando o filme descamba para um surpreendente e bem-vindo realismo fantástico. Uma escolha ousada para um longa que é, até o finzinho, muito pé no chão.

Como em “Docinho da América”, a cineasta captura com um olhar de interesse, mas não exotizante, um país pobre de primeiro mundo. Antes foram os óbvios Estados Unidos; agora é o Reino Unido, uma sociedade em decadência.

“Bird” é ainda ancorado em atuações que ficam com o espectador ao sair da sala. O alemão Franz Rogowski, por exemplo, deixa claro o porquê de ser um dos atores europeus do momento, com uma fisicalidade contida que é essencial para desvendarmos, aos poucos, o quebra-cabeça de seu personagem.

Barry Keoghan, por sua vez, brilha nos poucos minutos de tela, se mostrando um ator cada vez mais maduro. Há tempo até para uma piada com “Saltburn”, seu último sucesso, quando seu personagem diz que “Murder on the Dancefloor”, canção que viralizou ao integrar sua trilha sonora, é chata. Momento de risadas garantidas.

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