Apatia popular testa regime do Irã em eleição presidencial

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A teocracia que dita os rumos do Irã enfrenta nesta sexta-feira (4) um dos maiores desafios desde que o aiatolá Ruhollah Khomeini voltou do exílio francês para tomar o poder em 1979: a apatia do eleitorado que, mesmo dentro dos limites estreitos do sistema, validava o regime de quatro em quatro anos.

O segundo turno das eleições convocadas de forma antecipada e inédita devido à morte em uma queda de helicóptero do presidente Ebrahim Raisi, em maio, irá opor candidatos nominalmente de campos rivais.

Estão no páreo o ultraconservador Saeed Jalili e o moderado Masoud Pezeshkian. Ambos são produto do regime islâmico e não representam ameaça real ao líder supremo, Ali Khamenei, que via em Raisi seu possível sucessor.

O perigo para o aiatolá, de 85 anos e saúde debilitada, vem das ruas. O próprio Khamenei, em uma rara fala sobre o tema, disse na quarta-feira (3) que o comparecimento dos eleitores no primeiro turno do dia 28 de junho foi “menor do que o esperado”.

Foram às urnas 39,9% dos 61,4 milhões de eleitores potenciais, o menor índice desde a criação da República Islâmica. Mesmo a eleição de Raisi em 2021, um jogo manipulado para sua vitória, levou metade do eleitorado a votar.

O sinal do desinteresse já era claro na eleição parlamentar de março passado, que registrou 41% de participação.

Tudo isso reflete o desgaste recente do regime, que sofre com as sanções reintroduzidas pelos Estados Unidos em 2018, sob o governo de Donald Trump. Joe Biden prometia amenizar a situação, mas nada ocorreu, e agora o antecessor republicano pode voltar ao poder.

Ao mesmo tempo, Khamenei asseverou sua posição endurecendo o regime. Manobrou para Raisi, um conservador de linha dura associado a massacre de opositores do regime, chegar à Presidência —que, apesar de não ter a palavra final, influi muito na condução de políticas internas e externas.

O símbolo desse período foi a morte na prisão de Mahsa Amini, uma mulher curda de 22 anos que havia sido detida por não usar o véu islâmico da forma que a polícia religiosa considerava correto. Isso levou a inauditas manifestações contra o governo, temperadas por insatisfação econômica.

Apesar de Raisi ter visto uma retomada devido à venda de petróleo, o custo de vida subiu —em seu governo, a carne ficou 440% mais cara, por exemplo.

Além disso, o Irã se viu no meio do turbilhão regional da guerra Israel-Hamas, na qual apoia o grupo terrorista e que ameaça espalhar-se para o seu protetorado xiita no sul do Líbano, comandado pelo Hezbollah.

Tudo isso estará na conta de Jalili ou Pezeshkian. No primeiro turno, o segundo, moderado, ficou com 44% dos votos válidos, ante 40% do primeiro, conservador. O fiel da balança será o terceiro colocado, o também conservador general Mohammad Bagher Ghalibaf, que teve 14%.

Isso sugere uma vitória de Jalili, 58, mas a conta pode não ser automática se a abstenção for ainda maior ou se parte do eleitorado de Ghalibaf for afastado do conservador devido à sua fama radical extrema.

Ela foi construída no mandato do único dos cinco presidentes desde 1989, quando Khamenei assumiu o poder após a morte de Khomeini e uma nova Constituição foi aprovada, que não era um clérigo: Mahmoud Ahmadinejad.

De 2005 a 2013, Jalili foi o negociador nuclear do presidente, cujo governo é visto por analistas como um dos mais deletérios da história recente do Irã. Esse ex-combatente que perdeu a perna direita na Guerra Irã-Iraque (1980-88) ganhou fama pela inflexibilidade.

Foi descrito como “incrivelmente opaco” pelo diretor da CIA, William Burns, em suas memórias publicadas em 2019. Analistas o veem moldado pelas experiências na guerra contra o vizinho, que geraram algo próximo do fanatismo.

Para Shay Khatiri, do Instituto Yorktown (EUA), isso o torna o candidato mais perigoso para a comunidade internacional, mas também o que pode auferir mais ganhos internos no regime. Ele lembra que Jalili tem o apoio do estamento de segurança, fundamental para controlar o Irã em tempos de insatisfação popular.

Já o médico Pezeshkian remete ao único reformista que governou o país, Mohammad Khatami (1997-2005), o sorridente religioso que marcou sua gestão por abertura no regime —não exatamente vitoriosa, tanto que nada mudou profundamente e ele foi sucedido pelo cinzento Ahmadinejad.

O atual candidato foi ministro da Saúde no governo Khatami e, desde 2008, é parlamentar. Esposa a ideia de que é preciso voltar a negociar com o Ocidente, particularmente os EUA, sobre o programa nuclear dos iranianos.

O médico de 69 anos também inspira mais liberdade interna do que o seu rival, mas ninguém espera uma mudança de ares radical com Khamenei buscando controlar sua própria sucessão —e o destino da teocracia.

Pezeshkian foi o único moderado permitido pelo Conselho de Guardiões, órgão com 12 membros que aprova todos os candidatos a qualquer cargo no país, limitando a democracia local. Outras 74 pessoas foram vetadas, e dois candidatos conservadores desistiram na véspera do primeiro turno, na semana passada.

Na política externa, nenhum dos dois candidatos deverá mudar o rumo conflituoso atual, até porque ele passou a depender menos de Teerã e mais do que acontece em Israel. Ninguém quer uma escalada que leve a uma guerra regional, talvez com um choque direto com Tel Aviv e Washington, mas o risco está colocado.

Ao fim, será o comparecimento às urnas a régua para medir o risco de instabilidade que o regime corre.

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