Especialistas afirmam que ataques ordenados por Trump contrariam discurso anterior e favorecem governo Netanyahu
Analistas ouvidos pela Al Jazeera avaliam que os ataques ordenados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã atendem prioritariamente a interesses de Israel e do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e não aos interesses estratégicos norte-americanos.
Segundo a reportagem, a ofensiva militar contrasta com declarações feitas por Trump durante visita ao Oriente Médio, em maio, quando afirmou que a política externa dos Estados Unidos não deveria buscar remodelar governos na região. À época, o presidente criticou intervenções anteriores, afirmando que “os chamados construtores de nações destruíram muito mais países do que construíram” e que intervenções ocorreram em sociedades complexas que “nem mesmo entendiam”.
Menos de um ano depois dessas declarações, Trump determinou ataques ao Irã sob o argumento de promover “liberdade” no país, linguagem associada a políticas intervencionistas adotadas por administrações anteriores, como a do ex-presidente George W. Bush.
Especialistas em política externa disseram à Al Jazeera que a guerra não se alinha ao discurso político nem às promessas de campanha do presidente norte-americano. Para Negar Mortazavi, pesquisadora do Center for International Policy, em Washington, trata-se de “mais uma guerra de escolha lançada pelos EUA com impulso de Israel”. Segundo ela, Israel pressiona os Estados Unidos há duas décadas por um ataque ao Irã.
A reportagem também relembra que Netanyahu defende, há mais de 20 anos, que o Irã estaria próximo de desenvolver armas nucleares. O governo iraniano nega buscar uma bomba atômica, e autoridades norte-americanas já declararam não haver evidências públicas de que Teerã esteja convertendo seu programa de enriquecimento de urânio em armamento.
Após bombardeios a instalações de enriquecimento nuclear iranianas durante conflito anterior, Netanyahu passou a destacar o programa de mísseis balísticos de Teerã como nova ameaça. Em entrevista citada pela Al Jazeera, o premiê afirmou que o Irã desenvolve mísseis com alcance capaz de atingir território norte-americano. A alegação é negada pelo governo iraniano e não foi acompanhada de evidências públicas.
Trump reiterou essa avaliação em pronunciamento recente ao Congresso, afirmando que o Irã já teria desenvolvido mísseis capazes de ameaçar a Europa e bases no exterior, além de trabalhar em armamentos com potencial de alcançar os Estados Unidos.
A reportagem destaca ainda que, apesar da escalada, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA divulgada no ano passado indicava a intenção de reduzir a prioridade do Oriente Médio na política externa norte-americana. Pesquisas de opinião mencionadas pela Al Jazeera apontam que a maioria dos norte-americanos se opõe a um novo conflito com o Irã.
No primeiro dia da ofensiva, o Irã lançou mísseis contra bases e cidades que abrigam tropas e ativos dos Estados Unidos na região. Trump reconheceu a possibilidade de baixas entre militares norte-americanos, afirmando que “isso frequentemente acontece em guerra”, e classificou a missão como “nobre”.
A reportagem também relata que, antes da escalada, Washington e Teerã haviam retomado negociações diplomáticas. Segundo mediadores e autoridades iranianas citados, as últimas rodadas de conversas registraram avanços e incluíam disposição iraniana para aceitar inspeções rigorosas no programa nuclear.
Jamal Abdi, presidente do National Iranian American Council, declarou à Al Jazeera que o início do conflito durante negociações representa vitória política para Netanyahu. Parlamentares norte-americanos críticos à ofensiva afirmaram que a população dos EUA não deseja nova guerra no Oriente Médio.
Fonte: Al Jazeera