Analistas mantêm desconfiança e veem risco de Copom antecipar fim do ciclo de corte de juros

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A ata mais dura do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central não foi suficiente para acabar com a desconfiança do mercado financeiro sobre a atuação dos membros indicados pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas colocou no radar de uma ala de economistas o risco de antecipação do fim do ciclo de corte de juros.

Um novo racha no colegiado do BC também não está descartado, ainda que o documento divulgado nesta terça-feira (14) procure salientar a concordância de todos os membros com relação à necessidade de uma política monetária mais contracionista e mais cautelosa -ou seja, em patamar suficientemente elevado para segurar a inflação.

Para Fabio Kanczuk, ex-diretor do BC e head de macroeconomia da ASA Investments, o mercado não comprou a versão de que a razão para o dissenso do Copom foi o custo reputacional da quebra da promessa feita em março.

O colegiado tinha sinalizado que repetiria um corte de 0,5 ponto percentual, mas na reunião de 8 de maio optou por uma redução menor, de 0,25 ponto, levando a taxa básica de juros (Selic) a 10,50% ao ano.

“O guidance [sinalização futura] sempre foi condicional. Além disso, Roberto Campos Neto [presidente do BC] deixou claro em Washington que, como as condições tinham mudado, o guidance já não valia”, diz.

“Tudo conspira para uma decisão que foi motivada por outra razão que não o guidance. E a desconfiança do mercado de que foi [uma decisão] política, não técnica, só aumentou”, afirma.

O economista Leonardo Costa, também da ASA Investments, considera que o esforço do BC para explicar a divergência não pareceu ser suficiente para reduzir o aumento da incerteza que ronda o mercado financeiro, diante do risco de uma composição “mais dove [suave]” a partir de 2025.

Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs para a América Latina, considera que a ata ajudou a reduzir um pouco a desconfiança do mercado sobre o futuro do BC.

Ele, contudo, pondera que “provavelmente essa dúvida só será saneada quando o mercado avaliar as decisões do Copom em 2025 vis-à-vis o espectro de riscos para a inflação”.

Segundo Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, a ata deixou claro que a divergência do Copom se deu sobre a comunicação com o mercado, não a respeito da política monetária em si. “Ou seja, uma divergência na forma, mas não no conteúdo.”

Na visão dele, isso pode tirar um pouco do desconforto dos economistas com relação ao racha. “Mas dificilmente o principal problema do BC, a desancoragem das expectativas, vai ser resolvido apenas com palavras. O pior é que nem com atitudes”, diz Leal em relatório.

“O grande problema para que as expectativas convirjam para a meta de 3% é a incerteza com relação à postura do BC a partir de 2025, quando não só o seu presidente, Roberto Campos, será substituído por um nome escolhido pelo presidente Lula, como também outros dois diretores. Ou seja, o placar que agora é de 5 a 4 a favor dos indicados [ou reconduzidos] por [Jair] Bolsonaro passará a ser 7 a 2 para os indicados por Lula”, afirma.

Já o time de economistas da AZ Quest, liderado por Alexandre Manoel, classifica a discussão sobre o descumprimento da sinalização como inócua. “A explicação somente mostrou que houve uma descoordenação no comitê, de modo que um erro, da comunicação aberta, foi seguido por outro”, diz.

A equipe de macroeconomia da XP prevê uma postura mais dura do Copom daqui para frente. Embora ainda trabalhe com um cenário de dois cortes de 0,25 ponto percentual na Selic (em junho e julho), vê risco de uma pausa antecipada. “Ao ler a ata, não se deve descartar uma pausa na próxima reunião”, diz.

Para trazer a projeção de inflação de 2025 para a meta (3%), os cálculos da XP a partir de um modelo similar ao do Copom sugerem a necessidade de uma taxa de juros em dois dígitos. “Especialmente porque vemos a expectativa de mercado de 2025 subindo ainda mais nas próximas semanas”, afirma.

O risco de uma pausa em junho também é apontado por Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter. Apesar da possibilidade, ela ainda vê espaço para cortes de 0,25 ponto percentual e mantém a expectativa de uma nova redução da Selic na próxima reunião.

“No entanto, o Copom se prendeu mais às expectativas de inflação do que à dinâmica da inflação corrente, e os próximos passos da política monetária podem ficar condicionados a uma revisão positiva dessas expectativas”, diz a economista, acrescentando que a ata ainda mostrou a dissidência da visão entre os membros do colegiado.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC e consultor da A.C. Pastore, vê a restauração da credibilidade do BC como um caminho sem volta nesse momento e espera novas divisões entre os membros do colegiado na medida em que se aproxima o fim do ciclo de flexibilização dos juros.

Após a divulgação da ata, a A.C. Pastore manteve a expectativa de mais dois cortes da Selic, seguidos de uma pausa no patamar de 10% ao ano.

“A se materializar tal previsão, não seríamos surpreendidos com o retorno da unanimidade de junho e julho, em particular se não houver nenhum anúncio de fim de ciclo naquele momento, ainda mais depois da reação adversa dos últimos dias”, diz a consultoria em relatório.

“Há, contudo, risco de novas divisões no Comitê quando da decisão (cada vez mais próxima) de anunciar o fim do ciclo de afrouxamento monetário.”

No radar, Schwartsman vê possibilidade “bem remota” de apenas mais um corte da Selic.

Mirella Hirakawa, coordenadora de pesquisa da Buysidebrazil, ressalta que o Copom foi enfático ao sinalizar preocupação em relação ao desvio das expectativas de inflação, tendo a palavra “cautela” aparecido sete vezes no texto divulgado nesta terça. “A princípio parece que tem mais pontos de convergência do que divergência”, diz.

“A ata na margem traz uma comunicação mais dura e deve diminuir a incerteza que foi gerada no comunicado, porém eu não posso a primeiro momento dizer que essa incerteza seria totalmente sanada porque a gente tem que dar uma olhada com mais detalhes nas próximas comunicações de cada diretor”, afirma.

Ela, por sua vez, considera que não se confirmou na ata a percepção sobre o risco de uma eventual mudança no arcabouço da política monetária e uma possível menor sensibilidade por parte dos diretores indicados por Lula quanto ao desvio da inflação em relação às metas perseguidas pelo BC.

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