Ajuda é fundamental ao RS, mas coordenação de ações deve passar por órgãos públicos

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Voos de drones particulares em áreas de resgate aéreo, doações de itens que não são de extrema necessidade neste momento e tentativas de resgate sem a técnica correta podem afetar o trabalho da Defesa Civil, segundo lideranças da área.

Especialistas defendem que é preciso centralizar as ações de socorro ao Rio Grande do Sul na gestão pública, sob a responsabilidade de servidores capacitados. Também apontam que esforços voluntários são bem-vindos, mas devem ser feitos sob a coordenação de profissionais e órgãos públicos, que recebem informações de quais recursos as vítimas precisam, onde estão as áreas de maior risco e quais os equipamentos devem ser usados nos resgates.

O Rio Grande do Sul ultrapassou a marca de 100 mortes em decorrência das chuvas), com mais de 1,4 milhões de pessoas afetadas pela tragédia, segundo o governo do estado.

“Nessa situação, não podemos levar mais problema, enviando materiais que eles não vão conseguir acondicionar. Precisamos de um contato constante com o estado para ter certeza de que estamos enviando o que eles precisam”, afirma o capitão Rodrigo Fiorentini, diretor do núcleo de logística humanitária da Defesa Civil de São Paulo, que está trabalhando com a equipe de resgates gaúcha.

A doação de cestas básicas, colchões, itens de higiene pessoal, entre outros, deve passar pela Defesa Civil para controle de quantidade e qualidade. O órgão também é responsável por direcionar os materiais às vítimas.

Instituições, empresas e ONGs recebem doações para vítimas das chuvas no RS; veja como ajudar

O major Luis Antônio e Silva, superintendente de Gestão de Desastres da Defesa Civil de Minas Gerais, conta que, em uma enchente que ocorreu no interior do estado em 2017, houve doadores que levaram produtos direto à população, sem passar pelo órgão.

A falta de controle gerou uma desigualdade de distribuição. A equipe descobriu pessoas que tinham pego várias cestas básicas doadas com objetivo de vender para os demais habitantes.

“Tem gente que dizia que não confiava no [órgão] público e preferia ir lá entregar”, afirma. “Mas quando é um órgão público, há controle. É coletado o CPF de quem recebeu, às vezes, tem envolvimento da assistência social, então não vamos destinar dez cestas para apenas uma família”, afirma.

Se o doador preferir entregar os materiais por conta própria, ele pode buscar a Defesa Civil de seu estado para que os servidores verifiquem qual conteúdo será entregue, se está de acordo com a necessidade do local de destino, e, a partir disso, emitam uma declaração.

O mesmo vale para as doações financeiras, de acordo com o major. Nas redes sociais, há uma proliferação de campanhas para angariar fundos, mas nem todas oferecem transparência sobre a alocação de recursos. Ele diz que a recomendação seria buscar os meios oficiais, como o Pix disponibilizado pelo governo do estado.

Dados oficiais sobre vítimas e desaparecidos também partem dos órgãos públicos. Embora cresça o número de perfis nas redes sociais divulgando informações sobre desaparecidos, sobretudo menores de 18 anos, o Ministério Público do estado alerta que é proibida a divulgação de imagens de crianças e adolescentes sem autorização. Segundo o órgão, a informação segura é encontrada nos centros públicos de acolhimento da infância e da juventude.

Em São Paulo, a equipe chefiada por Fiorentini recebe materiais doados às vítimas do Rio Grande do Sul, faz a triagem e organiza para envio. São 50 profissionais no centro de logística no Jaguaré, bairro na capital paulista, dedicados a prestar apoio à população gaúcha.

Eles verificam a validade e se os produtos estão em boas condições, fazem a separação de materiais doados de acordo com a finalidade e organizam as embalagens de modo a facilitar o transporte aéreo. Nesse processo, antes de os recursos saírem da capital paulista, a Defesa Civil do RS é avisada sobre o quê, quando e quanto será recebido.

A doação de itens que não são imediatamente necessários pode levar a um problema logístico. Isso porque eles afetam a capacidade de armazenamento dos depósitos e exigem um cuidado adicional de parte da equipe, que deve se responsabilizar pelos materiais para que não sejam furtados.

No Rio Grande do Sul, além da tragédia provocada pelas enchentes, a população tem enfrentado roubos e violência. A capital gaúcha teve mercados e farmácias saqueados, conforme mostrou reportagem da Folha de S.Paulo.

A solidariedade vai além da doação de produtos, com voluntários participando do resgate das vítimas. Alguns, inclusive, usam barcos e drones para localizar perdidos nas enchentes.

Segundo os representantes da Defesa Civil, o apoio é importante, sobretudo quando a demanda supera a quantidade de profissionais de resgate. No entanto, ter pessoas se colocando em situação de risco sem o treinamento necessário pode levar a mais vítimas.

“Não adianta ter um barco, se ele não for apropriado para fazer resgate”, diz o coronel Pedro Carlos Borges de Lira, comandante de Operações de Defesa Civil do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás.

“É muito importante ter ajuda nesse momento de socorro, mas ela deve ser coordenada pela equipe de bombeiros.”

Segundo ele, também o uso de drones de curiosos, que podem interferir na chegada de aviões que levam suprimentos ao estado. No Rio Grande do Sul, há voluntários atuando sob o comando da brigada militar para encontrar vítimas.

Segundo o major Luís Antonio, de Minas Gerais, o apoio dos cidadãos não precisa estar restrito ao resgate. As equipes de saúde, de distribuição de comida e outros itens essenciais também precisam de mais pessoas.

“Tem muita coisa que o voluntário pode fazer sem se colocar em risco. Sem eles, dependendo da dimensão, fica muito difícil de trabalhar, mas precisa ser em atividades específicas.

Não podemos colocar o voluntário para fazer socorro e salvamento, algo que o bombeiro, extremamente treinado e técnico, deve fazer. Cabe todo mundo, mas precisa passar pela defesa civil, que tem o papel de coordenar isso.”

ONDE DOAR?

Depósito do Fundo Social de São Paulo

Av. Mal. Mário Guedes, 301, Jaguaré – São Paulo (SP)

Itens: água mineral, materiais de limpeza e de higiene pessoal

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